O Nobel da UE
O anúncio da atribuição do Prémio Nobel da Paz à União Europeia na semana passada justifica que nos detenhamos sobre o seu significado político e ideológico no actual quadro de crise na e da UE. Beneficiando do apoio e cumplicidade dos centros de propaganda do imperialismo, a reacção ao anúncio da atribuição do Prémio Nobel da Paz à UE transformou-se numa campanha assente no mais primário anticomunismo, na manipulação mais grosseira da história da Europa e da UE e na tentativa de branquear o brutal ataque aos direitos e conquistas sociais dos povos, às soberanias nacionais, aos mais elementares princípios democráticos e ao aprofundamento do processo de militarização da UE, da sua subordinação à NATO e a sua transformação no pilar europeu desta organização imperialista.
O Comité Nobel Norueguês deu uma nova machadada na já pouca – para não dizer nenhuma! – credibilidade que o galardão ainda tinha. Convém lembrar que o historial de manipulação e descrédito do Nobel da Paz não surgiu com a sua atribuição à UE ou ao presidente dos EUA, Barack Obama (2009), duas semanas depois de ter sido eleito, «pelos seus extraordinários esforços para reforçar a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos» – pretextos que a vida tem demonstrado serem falsos. Mas voltemos ainda mais atrás, a 1973, quando o Prémio Nobel da Paz foi atribuído a outro americano, Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA, o fundador da realpolitik – o fundador da diplomacia moderna dizia-me um professor na universidade – o qual recebeu o prémio pelos seus «esforços» para colocar fim à guerra no Vietname. Kissinger recebeu o prémio depois de ter sido um dos maiores responsáveis pelos hediondos crimes no Vietname (três milhões de mortos). Kissinger foi responsável pela «Operação Condor» e pelo golpe militar de Pinochet contra Salvador Allende no Chile, responsável pela instalação da ditadura dos militares na Argentina, responsável pelo apoio dos EUA à UNITA e à FNLA contra o MPLA e as tropas cubanas que apoiavam este último a avançar para a libertação final de Angola. Foi este o homem que apoiou Suharto (Indonésia) na ocupação de Timor-Leste, com receio da crescente influência das FRETILIN. Foi este o responsável pela acção contra-revolucionária de Frank Carlucci (embaixador dos EUA em Portugal de 1975 a 1978) e pelas conspirações com Mário Soares. O que todas estas acções tinham em comum era a vontade desesperada de conter a influência da União Soviética no apoio à luta libertadora dos povos. Nesse período, como agora, foram o anticomunismo ou os ataques a qualquer projecto político progressista o que o Comité Nobel quis premiar.
A atribuição do Prémio Nobel da Paz transformou-se em muitos casos na arma de arremesso das potências da UE e da NATO, o galardão que alimentou campanhas de ingerência e branqueamento de uns (os amigos) para atacar a outros (países e povos que não se submeteram).
O prémio só será entregue em Dezembro, mas daqui até lá rios de tinta correrão nas tipografias dos jornais, muitas horas serão consumidas nas rádios e televisões, um verdadeiro corrupio de artigos, notícias e comentários preencherão a Internet e as redes sociais. Aproveitando a época natalícia, serão tecidas as mais hipócritas loas à UE, serão feitos os maiores e mais empolgantes discursos para impingir ao povo a ideia de que não há alternativa à UE do grande capital e das grandes potências. Não há alternativa e devemos estar todos felizes e gratos pelo que temos. Todos devemos aceitar esta via de sentido único e aceitar orgulhosamente o empobrecimento, o retrocesso nas condições de trabalho e de vida. Devemos aceitar que sejam os senhores da UE e não os portugueses a decidir por nós. Devemos aceitar que os intermediários do grande capital no Conselho Europeu, na Comissão Europeia ou na maioria do Parlamento Europeu decidam por nós e para nós. Porque afinal, iluminados pela sua sabedoria, eles sabem o que é melhor. As elites económicas fundem-se com as elites políticas e no fim as sociedades funcionarão na harmonia e na paz radiosa do grande capital.
No dia em que os camaradas e amigos lerem este artigo poderá estar a ser desferida mais uma machada na soberania do nosso País e a criar-se as condições para aumentar ainda mais a exploração numa dessas cimeiras do tudo ou nada. Sim, a exploração, sempre a exploração, porque no fim de contas é para isso que serviu e serve a UE. A luta é a arma do povo, a luta de massas organizada e com objectivos concretos pode conseguir o que por vezes parece inalcançável.