O editorial acéfalo?

João Frazão

Sob o título «a moção de censura bicéfala», o Público desta terça-feira discorre sobre a apresentação de duas moções de censura distintas. Em editorial, afirma que estamos perante a «estranha decisão de serem apresentadas duas moções diferentes, mas que dizem a mesma coisa», apelidando esta situação de absurda.

O Público não deve ter lido o texto da moção de censura do PCP e não ouviu o seu Secretário-geral na apresentação de tão importante iniciativa política.

A decisão de avançar para uma moção de censura, por parte do Partido, funda-se na situação concreta do País, na avaliação que fazemos da política do Governo e da intensificação da ofensiva contra os trabalhadores e o povo, que terá um mais que certo novo agravamento quando se conhecerem as medidas escondidas a incluir no Orçamento do Estado.

As razões do PCP, bem expressas no texto, são de rejeição da política de direita e do pacto de agressão que neste momento a enforma, e de censura aos seus responsáveis de sempre e executores de hoje.

A censura do PCP é a expressão institucional de uma corrente de indignação e protesto que se sente no País, que há meses se vem manifestando nas empresas e nas ruas. É, na Assembleia da República, a voz das centenas de milhares de homens e mulheres que, no passado sábado, 29, no Terreiro do Povo, numa das maiores manifestações de sempre na cidade de Lisboa, deram uma magnífica mostra de determinação e confiança e quer ser um estímulo mais para a sua continuação.

As razões da censura do PCP correspondem ao seu processo autónomo de apreciação sobre a situação política e social do País (que não é, reconheça-se, confundível com nenhum outro) e sobre os caminhos para lhe responder.

Numa tentativa de menorização da iniciativa política do Partido, o Público afirma que o PCP «não tem alternativa à estrada do memorando».

Não leu. Se lesse veria que a moção de censura do PCP apresenta um caminho, o de «uma política alternativa patriótica e de esquerda, que retome os valores de Abril e dê corpo ao projecto de progresso que a Constituição consagra».

O Público não está de acordo com este caminho. Compreende-se. Mas fica-lhe mal fazer o papel de acéfalo, parecendo que escreve sobre o que não leu ou que, se leu, não entendeu o que o texto da Moção de Censura ao Governo apresentada pelo PCP dizia.



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