No limite
Por mais que pensemos que há um limite para a mentira, a hipocrisia, a falta de respeito com que os governantes e os seus porta-vozes brindam os trabalhadores e o povo em geral na permanente tentativa de lhes vender gato por lebre, a verdade é que a realidade demonstra a cada passo não haver de facto limites para quem tem como missão servir o capital. O que se está a passar nesta fase pós queda da TSU é paradigmático. Confrontado com o grito de revolta que se fez ouvir por todo o País, o poder instituído tocou a rebate e de pronto re-orientou a sua estratégia, não para mudar de rumo mas para prosseguir os seus objectivos por outros meios. Sob a batuta do Presidente da República, acolitado pelos conselheiros de Estado, Governo, patrões e UGT reconheceram ter sido um erro pôr tão claramente a nu – tão claramente que toda a gente enfim percebeu – o que há muito vêm fazendo de forma encoberta: roubar os trabalhadores e o povo, na carteira e nos direitos, para salvar o capital. Havia pois que arrepiar caminho, e depressa. A encenação foi cuidada. Passos Coelho recebeu os parceiros sociais; reuniu a Comissão Permanente de Concertação Social; convocou um Conselho de Ministros extraordinário. No entretanto, Passos Coelho, com aquele ar de quem traz a corda ao pescoço que agora ostenta, veio dizer ao País que o Governo, em cumprimento da deliberação do Tribunal Constitucional, vai repor os subsídios de férias e de Natal roubados em 2012, e encontrar alternativas à TSU através de alterações ao IRS, para além de outras medidas para reduzir em quatro mil milhões de euros a despesa do Estado.
Apesar de ainda estarem por apresentar as medidas em concreto, basta atentar nos montantes em causa e ter presente a decisão de «mexer» no IRS para perceber, sem margem para dúvidas, que o que está na forja é um roubo ainda maior aos trabalhadores e ao povo português, através do saque directo nos vencimentos, feito na fonte e sem hipótese de fuga, e em novos cortes nas funções sociais do Estado. O resto são cantigas.
O esbulho não tem limites. Resta assim, no limite, responder mais alto e mais forte do que nunca. No Terreiro do Paço e sem tréguas, para que Portugal volte a ser um terreiro do povo.