Entre a mentira e a manipulação
Nos dias finais da primeira quinzena de Julho, Henrique Capriles, o candidato da direita venezuelana publicou no seu twitter – e a partir de aí a «notícia» circulou amplamente nos meios da comunicação social burguesa, andou pelas redes sociais e saltitou de boca em boca – que o governo de Hugo Chávez proibia aos militares venezuelanos que vissem a mensagem audiovisual que o representante crioulo dos interesses dos monopólios internacionais iria transmitir a todo o país dentro de pouco.
Esta «decisão autoritária» estaria contida num radiograma identificado com o código 4926 – que foi «oportunamente» mostrado – que teria o escudo oficial, estaria assinada pelo general Carlos Mata Figueroa, ministro da Defesa, e mostrava como data... 31 de Julho!
Em muito pouco tempo, esta «notícia» foi desmascarada. Era, claro está (outra) falsificação – absolutamente nojenta, mas deliberadamente calculada – em que se está a mostrar fértil a campanha da contrarrevolução.
Existe, de facto, um radiograma – autêntico – com o código 4926. Só que não se refere ao que publicou Capriles no seu twitter. O original trata sobre um conjunto de normas relacionadas com a utilização da farda militar, e muito menos tem uma data à qual ainda não chegámos.
Apanhados com a boca na botija, os «criadores» do documento fecharam-se em copas e não disseram nada. Dias depois, e porque já era impossível calar o escândalo, saíram a terreiro para «explicar a verdade». Afinal o que tinha sucedido era de pôr em pratos limpos. Um tal Armando Briquet, um dos «cérebros» da campanha eleitoral reaccionária, esclareceu que «lhe fizeram chegar» esse documento desde as Forças Armadas. Outro «responsável» da oposição, Julio Borges, foi ainda mais claro: o que sucede é que «nos passaram uma rasteira»! Obviamente, teria sido o governo bolivariano o autor da rasteira!
Olhado bem de frente, isto é assim. No caso hipotético (pouco provável) de que «lhes tivesse chegado» o documento, o mais sensato e responsável não teria sido averiguar sobre a sua autenticidade antes de o publicar no twitter do candidato presidencial? Esta irresponsabilidade (é mais provocação do que irresponsabilidade), leva-nos a concluir – uma vez mais – que a oposição tem um candidato que, além de «saltador» de muros de embaixadas e de desconhecedor das leis diplomáticas mais fundamentais, é um absoluto irresponsável que publica no seu twitter documentos alegadamente oficiais sem se preocupar com a sua veracidade. Na verdade, conhecendo a história deste ex-integrante da organização pro-nazi e anticomunista Tradição, Família e Propriedade[1], tudo indica que ele, ele e a sua gente, forjaram o mencionado radiograma para acusar Hugo Chávez de outro «delito», assim como o «acusam» de divulgar a obra de governo através de transmissões conjuntas audiovisuais, as quais, além de estarem perfeitamente dentro da Constituição, são uma forma de dar visibilidade a obras fundamentais que os meios de comunicação da burguesia – os que formam a maioria – silenciam descaradamente.
Uma mentira nunca vem só
Contudo, estas manobras de baixa política estão perfeitamente articuladas e não são produto da causalidade. Tão-pouco é resultado do azar que nos últimos dias a oposição tenha posto a circular a «denúncia» de que o presidente teria dito, no discurso de 24 de Junho, dia feriado, que «quem não é chavista não é venezuelano». Uma frase tão estúpida não é produto da estupidez. O cérebro maquiavélico que a inventou sabia que ela correria o país de lés a lés e chegaria até ao estrangeiro para demonstrar o carácter «arbitrário» da revolução bolivariana. Sabia que haveria quem acreditasse que ela tinha sido dita, porque há sempre gente disposta a acreditar no que lhe convém ou no que melhor lhe parece. Sabia que pouca gente se daria ao trabalho de ler o discurso – que está na Internet – e que lá não está essa imbecilidade, a que os meios de comunicação deram/dão foro de autenticidade. Hugo Chávez não disse tal coisa, mas sim poderia ter dito, como esclareceu recentemente Diosdado Cabello, primeiro vice-presidente do PSUV, que quem «é chavista é patriota».
[1] Banida da Venezuela em 1984 por sequestrar jovens e levá-los para o Brasil. Em 1985, a Assembleia Nacional de Bispos do Brasil denunciou-lhe o carácter esotérico e o culto fanático ao seu chefe, Plínio Corrêa de Oliveira. TFP foi tão longe que até a CIA a acusou de «adestramento no uso de armas e na luta corpo a corpo».