Espanha intervencionada
O governo espanhol pediu, dia 9, assistência financeira para levar a cabo o saneamento do sistema bancário. Bruxelas abriu uma linha de crédito de 100 mil milhões de euros, ou seja, dez por cento do PIB do país. UE e FMI fiscalizarão o processo.
Espanha tombou como um castelo de cartas
Um mês depois de o governo espanhol ter nacionalizado a holding do Bankia, a quarta economia europeia, incapaz de se financiar nos mercados, caiu como um castelo de cartas, ficando nas mãos da «ajuda» externa.
O presidente do governo, Mariano Rajoy esquivou-se ao embaraço de reconhecer a necessidade da intervenção externa, deixando ao ministro da Economia, Luis de Guindos, a tarefa de fazer o anúncio ao país.
Guindos procurou amenizar as consequências do pedido de ajuda, evitou usar a palavra «resgate» e afastou qualquer comparação com os casos da Grécia, Irlanda ou Portugal. Disse também que o empréstimo se destina apenas à banca e acalmou os espanhóis, garantindo que as condições do empréstimo não implicam novas medidas de austeridade ou imposições externas à política económica do governo.
Todavia, saltam à vista as semelhanças da situação em que a Espanha caiu com a dos outros três países intervencionados pela troika. É certo que o dinheiro virá do Fundo Europeu de Estabilização Financeira e não terá a contribuição do Fundo Monetário Internacional, mas esse pormenor não livrará a Espanha da tutela do odiado FMI, como Guindos quis fazer crer, alegando que o Fundo terá apenas um «papel de assessoria e apoio» na aplicação do programa (El País, 09.06).
Governo sob tutela externa
Na verdade, na declaração emitida no próprio dia, os ministros das finanças da zona euro afirmaram taxativamente que caberá ao FMI «apoiar a aplicação e monitorizar a assistência financeira com auditorias regulares».
O eurogrupo deixou claro que «a Comissão Europeia, em ligação com o BCE, a ABE [Autoridade Bancária Europeia] e o FMI, assegurará o controlo e apresentará uma proposta sobre as condições da assistência ao sector financeiro».
Esclarece igualmente que «o governo espanhol manterá total responsabilidade pela assistência financeira e assinará o memorando», apesar de as verbas serem encaminhadas através do FROB (Fundo de Reestruturação Ordenada Bancária), enquanto organismo governamental.
Quanto a novas medidas de austeridade, o eurogrupo não faz alusão directa, limitando-se a assinalar que «a Espanha já aplicou importantes reformas de consolidação fiscal e no mercado laboral».
No entanto, avisa que «examinará de perto e regularmente os progressos» de Madrid em matéria de «défice excessivo» e «reformas estruturais, com vista a corrigir os desequilíbrios macroeconómicos».
Portanto, caso o desempenho da economia não melhore de modo a aumentar as receitas do Estado e equilibrar as contas públicas, é certo e seguro que os espanhóis serão chamados a fazer novos sacrifícios ao altar do sistema capitalista.
A evidência é tal que até o moderado deputado da Esquerda Unida, Gaspar Llamazares, declarou a sua total oposição à intervenção da União Europeia em Espanha, considerando uma «infâmia» falar de um «resgate preventivo» e lembrando que no passado também se usou a expressão «guerra preventiva». «Referendo já. Não à intervenção, nem mole nem dura», escreveu Llamazares (Lusa, 09.06).