O cavaco, o cherne e o coelho

Filipe Diniz

Existe um fórum «in­formal» cha­mado Con­selho para a Glo­ba­li­zação, cons­ti­tuído pela COTEC sob o alto e sempre bri­lhante pa­tro­cínio de Ca­vaco Silva.

Es­teve reu­nido em Cas­cais, com o ob­jec­tivo de trocar opi­niões sobre o seu tema e «em úl­tima aná­lise, sobre o re­lan­ça­mento da eco­nomia por­tu­guesa». Nele par­ti­ci­param «ges­tores de topo» de amigos do re­lan­ça­mento da eco­nomia por­tu­guesa como são o Lloydfs Ban­king, o Crédit Suisse, o ABB Group (a cujo apoio a eco­nomia por­tu­guesa deve o des­man­te­la­mento da Mague e da So­re­fame), o Unite In­vest­ment Bank, a Peu­geot/​Ci­troen, a Re­nault/​Nissan, entre vá­rios ou­tros do mesmo ca­libre.

Par­ti­ci­param também Ca­vaco Silva, Durão Bar­roso e Passos Co­elho, igual­mente in­te­res­sados no re­lan­ça­mento da eco­nomia por­tu­guesa, «em úl­tima aná­lise». E o que esse trio (mais uma troikac) disse é de re­gistar.

Ca­vaco ma­ni­festou a sua pre­o­cu­pação pelo de­sem­prego exis­tente. Mas confia em que me­lhore «já no se­gundo se­mestre». Porquê? Pri­meiro, porque tem pes­so­al­mente «re­co­lhido in­di­ca­dores po­si­tivos um pouco por todo o País». De­pois, porque confia nas ca­pa­ci­dades do INE em mar­telar as es­ta­tís­ticas. Está certo que os dados do INE serão «muito me­nores» do que os do Eu­rostat.

Bar­roso e Co­elho re­pe­tiram a ha­bi­tual la­dainha dos «fac­tores de com­pe­ti­ti­vi­dade e da re­forma do mer­cado la­boral» (leia-se mão-de-obra ba­rata, pre­cária e sem di­reitos). Bar­roso teve a lata de dizer que, «para cor­rigir os enormes e in­sus­ten­tá­veis de­se­qui­lí­brios a que Por­tugal chegou, é ne­ces­sário exe­cutar um co­ra­joso pro­grama que com­bine ajus­ta­mento or­ça­mental com re­formas es­tru­tu­rais. É o que Por­tugal está a fazer e, até agora, muito bem». E acres­centou ainda uma nota de in­ti­mi­dação contra a re­sis­tência dos tra­ba­lha­dores e do povo: «Quanto maior for a de­ter­mi­nação e con­senso na­ci­onal nesses países, mais será evi­dente a so­li­da­ri­e­dade dos países eu­ro­peus com Por­tugal».

Coube a Passos Co­elho a for­mu­lação mais sin­cera, e também a mais in­digna. Disse aos par­ti­ci­pantes: «aqueles (os ges­tores de topo) que já vendem Por­tugal no es­tran­geiro podem ajudar a re­forçar a imagem do País».

É gente desta que anda a apelar à auto-es­tima do País.

O País só terá ver­da­deira auto-es­tima quando correr com eles de vez.



Mais artigos de: Opinião

S(ó)ares

A eleição do senhor Hollande como presidente de França provocou no Partido Socialista um verdadeiro frenesim, que seria patético se não fosse grotesco. O pontapé de saída foi dado por Mário Soares – quem mais havia de ser? – em entrevista ao jornal i,...

A luta é o caminho!

Ainda que partindo de situações diferenciadas, as repercussões dos resultados das recentes eleições realizadas na Grécia e em França – pelo que expressam de justa rejeição das políticas da União Europeia e de não...

Sem <i>Pingo</i> de vergonha

Mascarada como uma inédita campanha de marketing, a acção do Pingo Doce do primeiro dia do mês constituiu uma tão pensada, quanto miserável, operação política e ideológica. Uma operação concebida ao milímetro, articulada como os...

O «caminho» de Seguro

Resultado de meses de estudo e cuidadosa preparação, o PS tem em marcha uma operação de branqueamento da sua brutal responsabilidade no afundamento do País e de distanciamento do governo de serviço ao pacto de agressão, roubalheira e declínio nacional, de que...

Ruptura patriótica e de esquerda!

O tempo que vi­vemos é um tempo de grande con­fronto de in­te­resses entre a classe que do­mina e os do­mi­nados – os tra­ba­lha­dores e o povo. É um tempo em que apesar do es­forço do poder do­mi­nante, com os seus ins­tru­mentos de do­mi­nação po­lí­tica, eco­nomia, so­cial, cul­tural e ide­o­ló­gica, as massas tra­ba­lha­doras lutam em de­fesa dos seus di­reitos con­cretos no tra­balho, na saúde, na edu­cação, na ha­bi­tação, na cul­tura.