O Passismo

Henrique Custódio

Há dias, para demonstrar que o tratado orçamental na UE «era inegociável», a chanceler alemã A. Merkel invocou que o pacto já foi «assinado por 25 chefes de Governo e já foi ratificado por Portugal e Grécia».

Percebe-se a aflição da senhora: é que dos tais 25 chefes de Governo «assinantes», dois já foram despejados (Holanda e Grécia) e outros para lá se encaminham. Restou-lhe invocar Portugal, país que até agora sempre ignorou com imperial sobranceria.

Este episódio expõe a vergonhosa subserviência do Governo Passista aos ditames da Sra. Merkel, dentro de uma União que se desfaz a olhos vistos.

Mas o perfil do nosso actual primeiro-ministro já foi desenhado pelo próprio.

Por exemplo, quando, há tempos, Passos Coelho afirmou que os desempregados portugueses, sobretudo jovens, tinham a emigração como alternativa ao seu dramático quotidiano, estava a definir-se e a denunciar-se.

A definir-se, pois um primeiro-ministro do regime democrático que propõe tal coisa coloca-se, por factual inerência, na pele de políticos camilianos a brilhar roliças boçalidades sociais.

Aliás, políticos desta envergadura – que mandam o próprio povo a malsofrer pelas estranjas para acudir à fome – foram «zurzidos» por Eça até os transformar em paradigmas da inutilidade daninha.

A uma visão deste jaez sobre o País nem o Gouvarinho de Os Maias conseguiria aceder, epítome que era da banalidade ignorante. Neste passo, o Passos nosso Primeiro ombreia com o estimável Conde de Abranhos, um «pascácio» encartado que todos sacrificou para chegar a ministro da Marinha. Também este, sem dúvida, que à falta de barcos não hesitaria em mandar a marinhagem à procura de esquadras noutro lado.

Mas tais visões e actos revelam uma cultura e um carácter, o que faz que Passos também se denuncie.

Um primeiro-ministro a propor a emigração como resposta ao desemprego, só pode acontecer numa espessa impreparação intelectual e política, agravada por uma retrógrada cultura de classe.

O que se lhe conhece de trajectória pessoal e política parece confirmar o anteposto. Ingressou no PSD com uns tenros 14 anos, para fazer da militância um projecto de vida. Tal foi a entrega à «coisa partidária», que o seu percurso académico se foi arrastando penosamente de curso em curso até, finalmente, aos 37 anos obter o almejado «canudo» fornecido por uma das universidades privadas a que o curso de Sócrates, «tirado ao domingo», daria indelével notoriedade. Quanto à sua formação político-ideológica, fez-se numa longa presidência da JSD (só de lá saiu aos 31 anos) e num frenético saltitar em recados partidários: candidato e eleito autárquico, mais umas deputações na AR. O salto final para a glória dar-se-ia ao abrigo de alguns apadrinhamentos estratégicos (Marques Mendes e Ângelo Correia, o da «insurreição dos pregos», parecem ter sido os últimos).

Tudo isto somado define o actual «Passismo»: uma mortífera incompetência e um feroz arrivismo político a desgovernarem o País.



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