A mais velha técnica do mundo

João Frazão

O pro­cesso está ins­crito nos anais da forma de agir de todos os go­vernos ao ser­viço do ca­pital.

De­cide-se pri­meiro que di­reitos é ne­ces­sário cortar! Avança-se com a ameaça de mal­fei­to­rias muito pi­ores (sempre com o apoio de tal ou tal fa­zedor de opi­nião) e dra­ma­tiza-se as con­di­ções que jus­ti­ficam e mesmo exigem essas me­didas.

Quando se aplica as me­didas ini­ciais, faz-se passar a ideia de que os que são es­bu­lhados dos seus di­reitos ainda ficam a ga­nhar.

Ve­jamos! Para cor­res­ponder à an­ces­tral gula do ca­pital de abo­ca­nhar a parte de leão da Se­gu­rança So­cial (con­tri­buintes aos mi­lhões, di­nhei­rinho em caixa, lucro ga­ran­tido e pre­vi­a­mente ar­re­ca­dado) os go­vernos de turno pro­curam vender a ideia de que: a Se­gu­rança So­cial não tem sus­ten­ta­bi­li­dade; não se pode pagar pen­sões de mon­tantes ele­vados, es­con­dendo que a mai­oria dos que as re­cebem des­con­taram sobre sa­lá­rios ele­vados; hoje há poucos tra­ba­lha­dores a des­contar para o con­junto de be­ne­fi­ciá­rios.

Para dar ideia de que está pre­o­cu­pado, o Go­verno sus­pendeu as re­formas an­te­ci­padas, ilu­dindo que nos úl­timos meses au­to­rizou o des­pe­di­mento de cen­tenas, senão mi­lhares de tra­ba­lha­dores, de em­presas que não qui­seram dar-se ao tra­balho de pro­ceder a des­pe­di­mentos co­lec­tivos! Que assim fi­caram de­pen­dentes do sub­sídio de de­sem­prego, ou seja dos co­fres da Se­gu­rança So­cial e são, na sua mai­oria, ho­mens e mu­lheres ve­lhos de mais para ar­ranjar tra­balho, mas novos de­mais para a re­forma, pelo que aca­barão con­si­de­rados de­sem­pre­gados de longa du­ração, com di­reito à re­forma an­te­ci­pada, ainda que o façam muitas vezes com se­veras pe­na­li­za­ções.

Há ainda o sempre pres­tável Ex­presso (há-de re­ceber uma me­dalha pelos bons ofí­cios!) que lança a ato­arda de que o Go­verno quer au­mentar a idade da re­forma para os 67 anos.

«Que não», diz o Go­verno, «a si­tu­ação é in­sus­ten­tável, mas aguenta-se com o pla­fo­na­mento das con­tri­bui­ções» (lá está, en­tregar de mão bei­jada às se­gu­ra­doras uma parte da re­ceita!), es­con­dendo que se a Se­gu­rança So­cial tem hoje menos re­ceitas isso se deve ao es­ma­ga­mento dos sa­lá­rios e que re­tirar essas re­ceitas à Se­gu­rança So­cial só agra­vará o pro­blema.

Mas calma, não é tão mau como se previa. E assim se monta o circo da mais velha téc­nica do mundo!



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