A receita de Krugman...

Três universidades portuguesas juntaram-se esta semana para atribuir o doutoramento honoris causa ao norte-americano Paul Krugman, o muito mediático prémio Nobel da Economia em 2008, que assim teve oportunidade de ostentar ao pescoço, em simultâneo, os símbolos da tripla distinção. Confessando nunca se ter sentido «tão vestido», Krugman aliou os agradecimentos à boa disposição e aproveitou a oportunidade para deixar a sua «receita» para o caso português: descer os salários 20 a 30 por cento. Trata-se, na sua óptica, de uma «inevitabilidade», mas que vem acompanhada de um conselho ao Governo PSD/CDS, a saber, o de que «deve resistir a apelos de mais austeridade» e tudo fazer para «persuadir a troika» de que cortes excessivos «não são do interesse de ninguém».

A contradição evidente entre a rejeição da austeridade e a defesa dessa brutal forma de austeridade que é a diminuição dos salários de quem já está sujeito a insuportável carga de medidas anti-sociais não incomodou o laureado. Mas talvez isso se explique pela insólita confissão que Krugman fez na aula Magna, em Lisboa. «É doloroso para mim constatar o fracasso da profissão», disse, referindo-se ao facto de os economistas esquecerem as lições das crises anteriores, incluindo a mais básica de todas, ou seja, que haverá sempre novas crises».

Se Krugman o diz, quem somos nós para desmentir?

 

e os colegas


Por falar em economistas e respectivos falhanços, não deixa de ser curioso que o aclamado Nobel tenha tido a seu lado, na cerimónia «três em um», colegas com firmado currículo no que ao falhanço da profissão diz respeito: os ex-ministros das Finanças Jacinto Nunes (também antigo governador do Banco de Portugal), Braga de Macedo e Silva Lopes (igualmente ex-governador). Embora a prestação destes três responsáveis não tenha estado em análise – o que teria sido interessante para o apuramento das responsabilidades do estado a que chegaram as Finanças portuguesas –, não é difícil perceber que a qualquer um deles se aplica o falhanço dos macro-economistas reconhecido por Krugman, pelo que devem ter enfiado a carapuça. Nada no entanto que tenha estragado a tertúlia. À afirmação do Nobel de que espera estar reformado se e quando o euro acabar, ripostou Braga de Macedo que o norte-americano «terá certamente uma casa cá em Portugal» para o acolher, o que suscitou riso geral. Falhados mas bem dispostos.

 

Radicalismo


Mário Soares, que nunca foi ministro das Finanças, também se pronunciou esta semana sobre a «crise profunda do capitalismo». Fê-lo a propósito de um livro de Michel Rocard – ex-primeiro-ministro francês – que Soares ainda não leu «porque não chegou às livrarias portuguesas», mas sobre o qual reflecte a partir de uma entrevista dada pelo autor ao Le Monde, onde a dado passo afirma que devido à crise profunda do capitalismo a «sociedade de amanhã será radicalmente nova», «menos mercantil e menos cúpida».

Soares vem explicar, não vá alguém tirar conclusões precipitadas, que «isto não quer dizer que o capitalismo vai desaparecer». O que vai é «mudar radicalmente», declarando guerra às finanças. Porque, explica, o que está em causa não é o capitalismo, mas a sua «desregulação monetarista», a qual deverá «mudar, obedecendo a valores éticos, dominando os mercados especulativos e impondo as conquistas sociais». Ora aqui está uma razão para Soares ter metido o socialismo na gaveta.



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