Este sol queima
Conhecidas as conclusões de mais um Conselho Europeu, é caso para dizer, ou melhor, escrever, que a montanha pariu um rato. Do nosso ponto de vista (de classe), nada de positivo era esperado. Do ponto de vista deles pouco ou nada se concluiu. As cimeiras da UE, como também são conhecidas, nada mais têm feito do que tomar as decisões esperadas, embora em alguns momentos possam ter sido cometidos alguns erros – quem não os comete! –, prevalecendo neste período de crise profunda medidas expectáveis que favorecem a aceleração do processo de concentração e centralização de capital na UE. O aprofundamento da sua crise parece justificar uma outra metáfora bem a propósito, apesar de estarmos em pleno Inverno – solarengo também ele –, ou seja que a crise é como o sol: a uns bronzeia e a outros queima.
O povo grego, assim como o português, é daqueles a quem o sol «queima», esturrica mesmo. E não se trata do facto de serem abençoados pelo clima, que em abono da verdade o são, nem de inveja dos que o vêem muito escassas vezes, o que também posso confirmar, antes é a consequência de um processo longo de exploração e de destruição da soberania dos povos que a UE encerra e da sua capacidade para tomar nas suas mãos o desenvolvimento de um sistema económico e social que, como um todo, satisfaça o indivíduo e o colectivo.
Trata-se da chantagem exercida contra os povos, que se acentua ainda mais quando se aproxima cada Cimeira da UE. E esta voltou a enfocar-se, principalmente, na situação grega, já que um eventual desfecho negativo (do ponto de vista deles) ameaça não apenas o euro mas a UE. As negociações para um corte de 50 por cento da dívida grega não estão a produzir resultados. Os chamados credores da dívida fazem exigências que são incomportáveis para um país em recessão económica. Os diferentes sectores do capital em disputa no corte da dívida não se entendem e ameaçam accionar os CDS (um seguro sobre o não pagamento da dívida), caso a Grécia não aceite as suas condições.
Contradições
Há sectores do capital, principalmente grego e ligado sobretudo à exportação, que preferem não chegar a acordo, preferindo a saída da Grécia do euro e a introdução do dracma (antiga moeda grega). As contradições sobem de tom e o desfecho é imprevisível. É à Grécia (e a Portugal), entregue nas mãos dos especuladores, que se pede «responsabilidade» e «compromissos», como se apenas estes fossem responsáveis pelas políticas que conduziram a tal situação. É evidente que os intermediários do grande capital preparam diferentes cenários, nomeadamente uma eventual saída do euro e/ou da UE por parte da Grécia, uma reconfiguração dos países da zona euro, ou mesmo o colapso do euro e/ou da UE, cuja responsabilidade poderá recair sobre os países que se encontram com a tutela da troika.
A UE já negoceia um terceiro «empréstimo» à Grécia, que começou por ser de 130 mil milhões de euros, mas sobre o qual já se diz ter de ser de 145 mil milhões de euros. Nada parece ser suficiente para «pagar dívidas» (injectar capital na Banca) ao grande capital financeiro.
O serviço da dívida e a dívida não são, nem nunca foram, pagáveis nas condições que são exigidas. O mesmo acontecerá com Portugal caso não avance uma renegociação da dívida – em prazos e juros – e com uma ruptura com o rumo e com as principais políticas da UE; uma política que aposte na produção nacional, na criação de emprego com direitos e em salários mais elevados, promovendo o investimento em serviços públicos de qualidade. Apesar das contradições continuarem a subir de tom, não se pense que esta política não funciona. Na verdade, esta política «funciona», ou, melhor dizendo, vai funcionando (por agora!), para permitir ganhos fabulosos a quem empresta a estes países; funciona para a Alemanha e para outros países para quem as emissões de dívida pública têm permitido poupanças importantes (Diário Económico – 06/12/2011). E para quem vende os seguros dos títulos da dívida. Não deve surpreender a vontade de querer manter uma política que parece irracional.
Nem tudo são cenários positivos para a Alemanha, já que a recessão lhe poderá bater à porta já em 2012. A aposta do grande capital na Alemanha como porto de abrigo seguro para os seus investimentos não resulta apenas da sua pujança económica mas igualmente do reforço do seu poder político e da forma arrogante como tem imposto os seus interesses na UE, cujo pacto fiscal e orçamental agora assinado é mais um exemplo. Para os trabalhadores e os povos, a UE e os poderes que a dominam prometem o sol que queima da exploração sem limites.