Ano começa amargo
Salários em atraso, portas fechadas e laboração parada, incerteza quanto ao futuro dos postos de trabalho marcam um início de ano amargo para os trabalhadores, que respondem com luta.
«Os trabalhadores não vão ficar de braços caídos»
Nos Estaleiros Navais de Viana de Castelo (ENVC), a indefinição quanto ao futuro arrasta-se e os Órgãos Representativos dos Trabalhadores (ORT’s) exigem ao ministro da Defesa, José Pedro Aguiar-Branco, que esclareça imediatamente se pretende encerrar a empresa.
Por pagar estão os salários de Dezembro aos 650 trabalhadores, e a falta de liquidez impede a compra de matérias-primas fundamentais para manter a produção ou iniciar a construção de navios em lista de espera na carteira de encomendas, como, por exemplo, os dois asfalteiros encomendados pela Venezuela em 2010, relatou à Lusa António Barbosa, da Comissão de Trabalhadores.
Na reunião das ORT’s, realizada terça-feira, os trabalhadores agendaram para ontem uma deslocação a Lisboa com o objectivo de reunirem com o ministro. Para amanhã, está convocado um plenário para decidir formas de luta.
Também no distrito de Viana de Castelo, as trabalhadoras da têxtil LD Confecções foram confrontadas, segunda-feira, 2, com as portas da empresa fechadas. «Chegámos para trabalhar e o patrão não nos deixou entrar, dizendo que vendeu a fábrica e que já nem a chave tinha», contou à agência de notícias Goreti Ferreira, uma das 22 operárias que se mantêm a cumprir horário à porta da fábrica, isto apesar de saberem que todo o recheio da unidade produtiva foi entretanto retirado.
Já na Cerâmica Valadares, em Vila Nova de Gaia, as preocupações dos 420 trabalhadores prendem-se com os salários em atraso, em alguns casos desde Novembro e para todos os funcionários o mês de Dezembro e o subsídio de Natal; e com a interrupção da laboração, desde dia 29, devido à falta de dinheiro para pagar o gás, informou o coordenador do Sindicato dos Cerâmicos do Norte, João Alberto.
Apesar da angústia, os trabalhadores da Valadares não vão ficar de braços caídos, e amanhã marcham até à Câmara Municipal para exigirem que a autarquia se envolva no salvamento daquela unidade com mais de 90 anos.
Em luta, estão também os trabalhadores do Congresso Hotel & SPA Turismo de São Mamede, no distrito de Portalegre, e da Jado Ibérica, em Braga. Os primeiros reclamam o pagamento de quatro meses de salários de 2011, e os subsídios de férias e de Natal, enquanto que os segundos contestam mais um lay-off abusivo.
No Congress Hotel, muitos foram já forçados a pedir a suspensão dos contratos, disse à Lusa o coordenador da União de Sindicatos do Norte Alentejano. Diogo Júlio lamentou ainda que «acabámos o ano a fechar empresas e começamos outro ano a fechar mais empresas», no caso uma unidade que gozou de dois milhões de euros de apoio público.
Na Jado Ibérica, a luta – cuja primeira acção ocorreu segunda-feira, 2, à porta da empresa, assumindo a forma de concentração de protesto – é pelo pagamento integral dos salários aos 112 trabalhadores. O Sindicato das Indústrias Transformadoras do Norte esclareceu que a empresa pretende, pela 4.ª vez em quatro anos, castigar quem reivindica melhorias salariais, recorrendo, para isso, a novo lay-off até Março, considerado abusivo pelos trabalhadores e pelas suas estruturas representativas.