Ei-los que voltam

Anabela Fino

Tempos houve, num passado suficientemente próximo para que muitos de nós ainda se recordem, em que Paris foi a segunda maior «cidade portuguesa», tantos eram os nossos compatriotas aí radicados. Na época, os mais afortunados saíam com vistos de turista e nunca mais voltavam; os restantes – a esmagadora maioria – sem outra fortuna a não ser a sua força de trabalho, saíam a salto, clandestinamente, que as fronteiras de então eram uma espécie de posto avançado das grades da gigantesca prisão em que o fascismo transformou Portugal.

Na raiz da diáspora portuguesa estava a fuga à miséria, à guerra colonial, a um regime que cerceava todas as liberdades. Foram anos de luto, de viúvas de vivos, de vilas e aldeias fantasmas onde a canção do trabalho era um lamento de sobrevivência. Foram anos de luta travada nas mais duras condições, com prisões, torturas, mortes, sem um sopro de liberdade para respirar.

Depois, depois veio Abril, o tempo em que desabrochou cada semente lançada à terra e Portugal renasceu. Tudo o que de bom e justo tivemos nestes 37 anos é fruto das conquistas que então se alcançaram: o direito à saúde, à educação, ao trabalho com direitos, ao merecido descanso, à reforma, à habitação, à justiça, à cultura... Tudo é fruto de Abril e de todos os Maios em que se cerrou fileiras para proteger e defender o que por direito é do povo.

Se ainda não o soubéssemos, a experiência dos últimos 35 anos – tantos quantos leva a contra-revolução – prova que não há revoluções de veludo, de cravos ou rosas que sobrevivam sem a efectiva liquidação do sistema de opressão e exploração que é o capitalismo. Travestidos de democratas, os donos do capital acolitados pelos políticos ao seu serviço voltaram a pôr as garras de fora e durante mais de três décadas têm vindo a destruir o edifício do Portugal de Abril. Não será exagero dizer que já estão a chegar aos caboucos.

De governo de alternância em governo de alternância, a saúde voltou a ser um luxo dos ricos – e bastou um mês das novas medidas «moderadoras» do Governo para as listas de espera para exames complementares de diagnóstico ultrapassarem os três meses; o ensino superior regressa a passos largos para a elitização do passado – e os lugares por ocupar crescem agora na proporção directa do aumento das propinas; a justiça encerra as portas para os cidadãos comuns – as custas são de tal ordem que cerceiam qualquer pretensão à legítima defesa dos direitos; o trabalho deu lugar ao desemprego e à crescente exploração – e meio ano de mandato PSD/CDS promete fazer regredir um século as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores.  

E ei-los que partem, outra vez, os portugueses, agora empurrados pelos que no Governo estão de tal forma destituídos da noção de país, de pátria, de nação, de povo que não se coíbem de escancarar as portas para a sangria nacional. Serão pelo menos 120 000, segundo os dados oficiais, mas até os governantes reconhecem que este número estará muito aquém da realidade.

Ei-los que partem, velhos e novos – como tão bem cantou Adriano de Oliveira –, com a mágoa de quem deixa para trás um pedaço de si.

Mas se uns partem porque outros voltaram, há então que voltar a dar a volta a isto. De vez. 



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