Barrigada de Natal

Anabela Fino

Não há fome que não dê fartura é um daqueles ditados populares que sempre me pareceu eivado de humor negro: quando a fome se junta à vontade de comer a única fartura que se vislumbra é mesmo uma barrigada de fome... Seja como for, o facto é que os portugueses foram este ano brindados não com uma mas com duas mensagens de Natal de sua excelência o primeiro-ministro. Ambas estão disponíveis na Internet, sendo que uma delas teve direito a transmissão televisiva. O cenário é basicamente o mesmo: Passos Coelho sentado num cadeirão de pano em frente de uma lareira – num do casos vê-se mesmo as chamas, noutro só se percebe o presépio e a bandeira nacional –, ostentando um fato escuro – o que varia é a cor da gravata –, de perna traçada e ar compenetrado de quem está a dizer coisas importantes. Os discursos – mais intimista um, mais oficial o outro – são uva da mesma cepa: o presente está duro mas o futuro vai ser de estalo. É evidente que não foram estes os termos usados, mas o sentido, grosso modo, é mesmo esse.

Pondo a tónica na austeridade e nos sacrifícios «necessários» para a mudança, Passos Coelho garantiu que 2012 «será um ano de grandes transformações», cujas incidirão «com profundidade nas nossas estruturas económicas», visando «libertar» Portugal de tais estruturas, porque são elas que «não permitem aos portugueses realizar todo o seu potencial, que reprimem as suas oportunidades, que protegem núcleos de privilégio injustificado, que preservam injustiças e iniquidades, que não recompensam o esforço, a criatividade, o trabalho e a dedicação». Daí – deduz-se – a liberalização dos despedimentos, o congelamento das pensões acima dos 247 euros, o aumento do horário de trabalho, a subida tas taxas moderadoras, os cortes nos subsídios, dos transportes, da água, da electricidade, etc., etc.

A terminar, sentado no seu cadeirão de pano, ao quentinho da lareira, Passos Coelho disse querer que o «crescimento, a inovação social e a renovação da sociedade portuguesa venha de todas as pessoas, e não só de quem tem acesso privilegiado ao poder ou de quem teve a boa fortuna de nascer na protecção do conforto económico». Que bonito é o Natal!      



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