Sobrevivência ameaçada
Na Grécia, as greves e protestos sucedem-se numa cadência diária. Aos trabalhadores e camadas desfavorecidas da população condenados à indigência resta a luta nas ruas contra as políticas selvagens do poder burguês.
Austeridade provoca degradação dos índices de Saúde
Depois da greve no sector público (administração e empresas) de dia 5, marcada por manifestações em mais de 30 cidades, esta semana começou com uma nova greve nos transportes públicos, enquanto se prepara uma greve geral para a próxima quarta-feira, dia 19.
A indignação popular subiu de tom face às novas medidas de austeridade, que prevêem 30 mil despedimentos imediatos na função pública e mais 200 mil até 2013. Os cortes já inscritos na proposta de Orçamento do Estado para 2012 voltam a atingir duramente os salários e o pouco que sobra dos serviços sociais básicos, designadamente no sector da Saúde, fortemente debilitado pelo subfinanciamento nos últimos anos.
O declínio acentuado das condições de vida da população apresenta já hoje sinais que levam especialistas a falar numa «tragédia grega». A expressão consta num estudo, divulgado, na segunda-feira, 9, por uma equipa de médicos britânicos liderada por Alexander Kentikelenis e David Stuckler da Universidade de Cambridge e Martin McKee da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.
Num artigo publicado no Lancet medical journal, citado pelo diário The Guardian (09.10), o grupo de cientistas salienta que o corte de 40 por cento no orçamento dos hospitais, a par do empobrecimento de amplas camadas da população, está a traduzir-se numa preocupante deterioração dos índices de Saúde pública.
A penúria de recursos é agravada por um afluxo crescente aos hospitais, devido ao facto de que muitos perderam direito a esquemas privados de Saúde. Assim, entre 2009 e 2010, o número de atendimentos hospitalares aumentou 24 por cento e no primeiro semestre deste ano registou-se novo aumento de oito por cento, em comparação com o período homólogo.
As longas filas de espera são desmotivadoras e muitos optam por não ir ao médico mesmo quando tal seria aconselhável. Assim, só entre 2007 e 2009, refere o estudo, aumentou em 14 por cento o número de gregos que qualifica o seu estado de Saúde como «mau» ou «muito mau».
Em paralelo, os cortes nos programas de trocas de seringas e cuidados primários fizeram aumentar para o dobro os casos de HIV, em 2010, entre consumidores de drogas injectáveis, enquanto o número de consumidores de heroína aumentou 20 por cento em 2009. Segundo Eleni Kokalou, do departamento de doenças infecciosas do Hospital Evangelismos, o maior de Atenas, desde Janeiro, o número de infecções com HIV aumentou mil por cento entre consumidores de drogas intravenosas.
O disparo dos suicídios é igualmente alarmante. Se entre 2007 e 2009 se registou um aumento de 17 por cento, dados oficiosos, citados no Parlamento, referem uma progressão de 25 por cento deste flagelo em 2010, em comparação com o ano anterior. Nos primeiros seis meses do ano, segundo informou o ministro grego da Saúde, os suicídios aumentaram em 40 por cento face ao mesmo período de 2010.
«O quadro geral da Saúde na Grécia é preocupante», concluem os autores do estudo. «O esforço para financiar a dívida está a ser pago pela população ao preço mais caro: a perda do acesso aos cuidados e serviços preventivos (…) É necessário prestar uma grande atenção ao acesso à Saúde para garantir que a crise grega não põe em causa a última riqueza do país – o seu povo».