O outro lado da Lua
Não me dei conta daquela notícia apesar de sempre estar mais que atento, ávido, relativamente aos serviços noticiosos dos diversos canais portugueses. Não me dei conta dela, mas também é certo que não me é fácil ver e ouvir tudo, mesmo recorrendo a gravações, tal como bem sei que as estações não podem trazer-nos todas as notícias que lhes chegam, que têm de fazer uma triagem, separar o que importa transmitir do que mais vale esquecer, o que aliás decerto fazem com muito gosto e empenho. Neste caso, tratava-se de uma manifestação. Bem se sabe que manifestações são o que há mais por esse mundo fora, de Berlim a Seul, de Londres a Luanda, por aí fora, também se sabendo até que de um modo geral a TV portuguesa até gosta muito de se ocupar delas retransmitindo reportagens que recebe já prontas a consumir e adicionando-lhes eventualmente comentários convenientes. Designadamente quanto a manifestações em Angola, é a televisão portuguesa louquinha por elas. Mas não por todas, em verdade: na SIC-Notícias deparei com a informação de terem acontecido em diversos pontos de Angola «dezenas de manifestações» de apoio ao MPLA e ao governo, mas não notei que outros canais lhes tivessem dispensado atenção. Será a tal coisa, não se pode atender prontamente a tudo, nem no balcão de uma imaginária drogaria remanescente dos velhos tempos nem no imaginário balcão de uma estação de TV que avia notícias, não drogas, embora a distinção entre um e outro produto nem sempre seja tão radical quanto porventura devia ser. Neste quadro, eu nem devia ter ficado surpreendido por não ter encontrado na TV portuguesa nem rasto de uma manifestação havida não no interior africano, onde as estações portuguesas nem sequer têm correspondente permanente, mas sim nos Estados Unidos da América, obviamente local de outro relevo e outro luxo. Mas repito: a coisa pode ter-me escapado. Se assim foi, azar meu, que deixei escapar o mais interessante, apenas me tendo salvo neste caso por obra e graça do Euronews.
Não apenas surpresa
A manifestação que só não ignorei porque o Euronews existe decorreu, pois, nos Estados Unidos da América, o grande país de onde não há frequentes notícias de grandes manifestações, o que aliás bem se compreende porque, como a TV nos tem vindo a ensinar ao longo de décadas, por lá as gentes vivem normalmente felizes, muito apaixonadas pela democracia que lhes garante o american way of life, orgulhosas por serem os campeões da Liberdade, apenas um pouco angustiadas quando uma grande crise lhes bate à porta. Assim, foi com compreensível surpresa que olhei para o que o Euronews me contava e mostrava em imagens breves: uma grande multidão de norte-americanos que se manifestava não contra uma guerra em curso ali ou acolá, não contra aumentos de impostos ou cortes em serviços estatais de Saúde, não contra o facto de o presidente Obama estar a desmentir o ex-candidato Obama, mas sim, espantosamente, contra o capitalismo! Com faixas em que se lia isso mesmo, e tudo! Fiquei abismado, como se calculará: afinal, pelo que ali me estava a ser mostrado, existem mesmo norte-americanos que já perceberam que o capitalismo traz na bagagem é «fome, peste e guerra», para usar aqui uma mítica trilogia já secular, e que querem substituir esse regime socioeconómico, supostamente triunfante ainda que visivelmente adoentado, por um sistema melhor, mais justo, mais humano, menos infame. Foi então que me lembrei da Lua e da sua face sempre escondida, motivo já velho para metáforas sobre as aparências evidentes e as realidades ocultas. É que, como se sabe, no seu movimento em torno da Terra, a Lua volta para nós sempre a mesma face, digamos assim, o mesmo hemisfério do globo que também ela é, nunca permitindo que vejamos a outra face que sempre nos é ocultada. A face que vemos é sempre linda, mesmo quando está reduzida à forma de uma vírgula: é brilhante, com aquela luz suave que nos inspira e faz sonhar. Da outra face, o comum das gentes não sabe nada. Assim me pareceu a Grande América quando olhei tantos norte-americanos reunidos para reivindicarem o fim do capitalismo: quem havia de dizer? E não foi apenas surpresa dentro da minha cabecinha, foi também a revelação que até nos Estados Unidos haverá qualquer coisa a germinar, provavelmente a crescer se o clima lhe for propício. E fiquei grato ao Euronews por aquela notícia que não encontrei nos canais portugueses.