«Carola» – as forças contraditórias que o rodeiam

A. Melo de Carvalho

Não existe, entre nós, aplicado à nossa realidade, qualquer estudo sério sobre a questão do dirigismo desportivo. Mas o conhecimento empírico da situação mostra que existem dois movimentos opostos, mas simultâneos: por um lado, o número de clubes tem sempre vindo a aumentar, enquanto se sente, por todo o lado, uma enorme dificuldade de funcionamento das direcções devido à escassez dos seus membros e às dificuldades do seu recrutamento.

A perspectiva em que se coloca o desporto praticado pelos elementos dos meios populares vem tornar esta questão ainda mais complexa. De facto, defendendo valores que se mantêm como positivos, ou procurando impor novos valores de forma a adequar a prática à nova realidade, em ambos os casos o desporto popular exige dirigentes desportivos com carácter militante. Durante muitos anos esta militância constituiu um dos traços característicos da quase totalidade dos dirigentes que davam vida a um enorme número de clubes desportivos. Com a evolução social vivida nos últimos 25 anos, esta situação alterou-se intensamente.

Mas convém ficar bem claro que o desporto popular só pode viver, sobreviver e afirmar-se, na medida do possível, na nossa sociedade, através do militantismo dos seus dirigentes. Torna-se, por isso, indispensável procurar esclarecer o que significa, aqui, «militantismo», e o que distingue o dirigente militante do simples «benévolo». Na verdade, falar, no presente, nestes dois termos provoca uma reacção de estranheza e até de recusa. O desporto transformou-se num «objecto» de consumo que se pretende integrar, na totalidade das suas formas de prática, no mercado e é este que deve regular as formas da «oferta» em resposta à «procura».

Todavia, a visão consumista não passa de uma miragem para um vasto número dos habitantes do nosso País. Basta fazer uma simples operação aritmética que tome em consideração o custo das práticas organizadas fora dos clubes, para compreender o sacrifício financeiro que muitas famílias têm de realizar para garantirem aos seus filhos o acesso a actividades essenciais para o seu desenvolvimento.

Este é unicamente o início da argumentação de defesa do «voluntário» e da necessidade dele ocupar uma posição autenticamente «militante».

O «benévolo» pode ser definido (uma entre muitas definições possíveis) como aquele indivíduo que aceita participar, sem obrigação nem qualquer contrapartida remuneratória, na resolução de questões sociais (educação, cultura, benemerência, etc.). Esta definição não toma na devida conta a origem histórica do «benévolo» ou «voluntário», ligada fundamentalmente ao conceito de benemerência e assistência. Mas, para o caso, tal não constitui obstáculo significativo.

As características essenciais do voluntário, em Portugal designado por «carola» quando situado no sector desportivo, são essencialmente três: dedicação voluntária, apolitismo e indispensabilidade. A análise destes três aspectos fornece resultados curiosos e, por vezes, inesperados.

O voluntário é, por natureza (?) devotado (do latim benevolus). O facto de aceitar a tarefa representa um compromisso de «devoção», ou seja, o indivíduo aceita desempenhar uma função sem nada receber em troca.

Sabemos bem como na realidade não é isto que acontece: o grau de «devoção» é muito variável, de qualquer forma sempre «interessado» em algo (seja na sua afirmação pessoal, no acesso a funções de prestígio que de outra forma nunca alcançaria, na luta por um ideal de salvação individual ou colectiva, de transformação social, etc.) nos seus aspectos que designaremos aqui por positivos. Mas essa «devoção» pode também assumir um carácter mais negativo («trampolim» para outros «voos», nomeadamente políticos, traficância de influências, obtenção de benefícios materiais, utilização da função para promoção pessoal e formação de grupos de pressão, etc.)

Tudo isto parece justificar, por um lado, a dificuldade em encontrar dirigentes e, por outro, as lutas pelo poder que se verificam frequentemente no interior dos clubes. De facto, na sociedade em que vivemos, é extremamente difícil subordinar o interesse do individual ao colectivo. Situação que, como se sabe, se tem estado a agravar devido a diferentes factores.

 

Nota: Por simples curiosidade convém referir que a designação de «carola» encerra múltiplos sentidos, alguns deles contraditórios. Se, no meio desportivo, a designação se refere a uma «pessoa que se dedica totalmente a qualquer obra, causa ou ideia» (sendo aqui a prática desportiva a «causa» e o funcionamento do clube a «obra»), sendo, com esse sentido generalizadamente empregue, é um facto que o termo também já designou «padre», «devoto», «fanático», «pessoa promotora ou amadora de festas de Igreja», «mentiroso», etc. (de acordo com os vários dicionários consultados).



Mais artigos de: Argumentos

Pobreza

A presidente da Assembleia da República atribuiu a Mota Amaral, na qualidade de ex-presidente do Parlamento, um gabinete, uma secretária, um BMW 320 e um motorista. Esta situação está a ser amplamente divulgada na Internet, com os cibernautas a ver provado que a Assembleia da...

O outro lado da Lua

Não me dei conta daquela notícia apesar de sempre estar mais que atento, ávido, relativamente aos serviços noticiosos dos diversos canais portugueses. Não me dei conta dela, mas também é certo que não me é fácil ver e ouvir tudo, mesmo recorrendo a...

A escola brutal do despotismo e a cartilha da Igreja

«O marxismo ensina o proletariado a não ficar à margem da revolução burguesa, a não lhe ser indiferente e a não entregar a sua direcção à própria burguesia; pelo contrário, a classe proletária deve participar nessa...