A escola brutal do despotismo e a cartilha da Igreja

Jorge Messias

«O marxismo ensina o proletariado a não ficar à margem da revolução burguesa, a não lhe ser indiferente e a não entregar a sua direcção à própria burguesia; pelo contrário, a classe proletária deve participar nessa revolução lutando, do modo mais combativo, pela chegada posterior da revolução democrática que reconheça conquistas ao proletariado e ao campesinato» (V.I.Lenine, 1905,  «Duas tácticas da social-democracia na Revolução Democrática»)

«Toda a economia das verdades religiosas de que a Igreja é guarda e intérprete, é de natureza a aproximar e reconciliar os ricos e os pobres, lembrando às duas classes os seus deveres mútuos e, antes de todos os outros, aqueles que derivam da justiça… Para derimir os conflitos e cortar o mal pela raiz, as instituições cristãs possuem virtudes admiráveis e múltiplas» (Leão XIII,  1891, «Encíclica Rerum Novarum»)

 «Não devemos confundir a sociedade com o conceito puro do modo de produção capitalista» (Marta Harnecker, 1974, «Explorados e Exploradores»)

Por grande que seja a intenção de encobrir as verdadeiras causas da ruína do sistema capitalista mundial, a esmagadora maioria dos órgãos da comunicação social não pode furtar-se a referir o assunto, ainda que de passagem.

São graves os riscos que assume. Com a verdade ou deturpando-a, o simples citar de um facto chama sobre ele a atenção de quem lê. Depois, compete ao leitor pesquisar a verdade e distinguir o trigo do joio. Assim  vai acontecer sem dúvida com o povo português. Tivemos a escola brutal do poder fascista. Vivemos os dias de sonho da Libertação. Enganaram-nos com mentiras e demagogias uma, cem, mil vezes… Agora, tudo vai ficando nu: a dimensão da falsidade e da corrupção; as trocas-baldrocas dos políticos oportunistas; ou a falsidade dos que vivem da exploração do homem e apontam a si mesmos falsas virtudes que os elevem aos olhos dos explorados.

Em todo este labirinto de ruelas e becos vamos encontrar a cada esquina a Igreja católica. Também ela vendeu a alma ao Diabo. Em defesa do que identifica com os seus interesses, manipula a doutrina e apoia os criminosos e os ladrões que o capitalismo cria livremente, enquanto esgota o caudal do seu discurso retórico  a favor de quantos cultivam a força bruta como arma principal da sua sede de poder. Tudo isto, por uma simples razão: a todos os níveis do seu funcionamento, o Vaticano assenta a sua visão das coisas na gramática do grande capital; nos monopólios, é accionista de peso e no seu próprio império financeiro, acolhe as grandes fortunas, os dinheiros de origem duvidosa (como é o caso dos off-shores) e investe ou «lava» capitais fabulosos em áreas que não conseguem ocultar as suas ligações ao sub-mundo do crime. À fé sobrepõe o lucro.

É tempo de a Igreja arrepiar caminho. Se o puder ainda fazer... É sobretudo  fundamental que essa mudança resulte das pressões internas crescentes desenvolvidas pelas bases políticas católicas  conscientes e decididamente empenhadas na defesa de um mundo melhor.

 

Realidades nada edificantes

 

As sociedades capitalistas ainda conseguem ser mais depravadas do que aquilo que as imagens nos revelam a cada passo. Há altos responsáveis que são tarados sexuais,  padres pedófilos, gente desonesta a gerir a banca e os grupos financeiros, branqueamento de somas gigantescas com a cumplicidade dos poderes estabelecidos, etc. Fala-se em «buracos» e todo o sistema capitalista é um imenso cano de esgoto.

Se tudo nos fosse contado e posto em «pratos limpos», outro galo cantaria. Mas não… No negócio, rouba-se por ser essa a natureza do negócio. Na comunicação social intriga-se porque a intriga faz vender. Na Igreja joga-se com os mitos e preenche-se o vazio de uma fé inexistente. Em suma, instala-se nas mentes um mundo irreal. Mascaram-se vaidades e a sofreguidão do lucro com aparências morais. Depois, baptiza-se a corrupção, convocam-se os falsos ideais e continua a apelar-se à Democracia, às Liberdades e à convivência solidária entre pobres e ricos.

Para além de lei da História, a luta de classes é um imperativo moral. Assim o deveriam entender os crentes honestos. Com o passar do tempo, assim o entenderão.

Bom seria, entretanto, que desencadeassem já esse longo processo de ruptura com o erro, a mentira e o crime consciente. Que banissem o dogma. Sem isso, de nada lhes servirá auto-proclamarem-se avançados e progressistas.

O tempo encurta cada vez mais...



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