Os prestidigitadores

Pedro Guerreiro

A questão que se coloca não é a escolha entre o maior ou menor domínio do dólar ou do euro

Perante (mais) um momento em que, pela crua realidade dos factos, é crescente a evidência da falácia das propaladas «boas intenções» da chamada «integração europeia», eis que, de novo e perante o descalabro, se levanta o coro daqueles que apenas sabem acenar com novos e mais significativos saltos federalistas para a União Europeia.

Para estes pregadores de enganos, que (sem surpresa) vão dos mais devotos à política de direita até aos agora ditos «europeístas de esquerda», se a realidade «mata», eles clamam «esfola».

Uns e outros, todos eles, se esforçam por dissimular o carácter de classe desta integração capitalista europeia e as suas inseparáveis dimensões, seja económica, institucional ou militar.

Aqueles que apregoam a necessidade de acrescidas «legitimidades» federalistas para as instituições da União Europeia e de um orçamento com carácter federal, com base numa política fiscal e num «ministério das finanças» da União Europeia, apenas procuram iludir as verdadeiras causas da situação económica de Portugal (e de outros países da «periferia» das grandes potências da UE).

Desta forma, tais pregadores procuram evitar que ganhe força a tomada de consciência de que só com a plena afirmação e exercício da soberania nacional pelo povo português será possível libertar o País das autênticas grilhetas que representam para o seu desenvolvimento económico e para a melhoria de vida dos trabalhadores e do povo, os ditames, os condicionalismos e o domínio do capital financeiro das grandes potências capitalistas da Europa, que têm nesta União Europeia capitalista, federalista e militarista o seu melhor instrumento de dominação.

Ao contrário do que nos querem fazer crer, para que aceitemos a sua política de incremento da exploração e de pilhagem do País, a questão que se coloca aos trabalhadores e ao povo português não é a escolha entre o maior ou menor domínio do dólar ou do euro no quadro das rivalidades/concertação intra-imperialistas, isto é, dos EUA ou da Alemanha, uma (falsa) escolha em que Portugal sairá sempre a perder.

No quadro da União Europeia, a verdadeira questão que se coloca aos trabalhadores e ao povo português é a necessidade da abertura de um caminho de ruptura com o domínio dos grandes grupos financeiros e económicos e das grandes potências capitalistas - que contam, em Portugal, com a participação activa e subserviente do PS, do PSD e do CDS-PP -, e de tomarem nas suas mãos a realização de grandes transformações políticas, económicas, sociais e culturais, para o qual é condição necessária a afirmação e defesa da soberania e independência nacional.

Como comprova a nossa história recente, o maior contributo do povo português para uma Europa de cooperação, de progresso económico e social, de paz e amizade com todos os povos do mundo é a retoma e concretização do projecto de desenvolvimento democrático iniciado pela Revolução de Abril.

Como conclusão e em resposta aos devotos à política de direita e aos agora ditos «europeístas de esquerda» e como renovado alerta a todos os patriotas/progressistas, a contradição maior e o carácter não democrático da UE têm a sua raiz num projecto que, centralizando o poder em instituições supranacionais dominadas pelas grandes potências e cujas políticas servem os interesses dos grandes grupos económicos, está em conflito aberto com os interesses e necessidades dos trabalhadores e a soberania dos povos dos diferentes países que a compõem.

Como Lénine correctamente sintetizou: «Do ponto de vista das condições económicas do imperialismo, isto é, da exportação de capitais e da partilha do mundo pelas potências coloniais «avançadas» e «civilizadas», os Estados Unidos da Europa, sob o capitalismo, ou são impossíveis, ou são reaccionários» (1).

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(1) In «Sobre a Palavra de Ordem dos Estados Unidos da Europa», Lénine



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