Maio é para lutar
A unidade, organização e luta dos trabalhadores são determinantes para que se passe a fazer em Portugal o oposto do que os governos do PSD, do PS e do CDS têm feito e têm permitido que o poder económico e financeiro faça. Do 1.º de Maio saiu um forte apelo à intensificação da acção colectiva, um incentivo a todos os que não se resignam nem se deixam intimidar e a convocação de duas manifestações nacionais, já no dia 19, contra a ingerência da UE e do FMI.
É preciso intervir no imediato para mudar de rumo
Nas comemorações do Dia Internacional dos Trabalhadores, que a CGTP-IN promoveu em quase meia centena de localidades de todos os distritos e das regiões autónomas, com a participação combativa de muitas dezenas de milhares de pessoas, foi afirmada a necessidade de alterar a política que conduziu o País à actual situação, rejeitando a pretensa inevitabilidade das medidas apadrinhadas pela troika do FMI, da UE e do BCE e recusando também que nas eleições de 5 de Junho se decida apenas quem, da «troika nacional PS-PSD-CDS», vai executar essas medidas.
No comício realizado em Lisboa, o Secretário-geral da CGTP-IN criticou os que «falam com uma enorme leviandade das medidas que se perspectiva que a UE e o FMI venham pretender impor ao nosso País». Manuel Carvalho da Silva lembrou que elas só poderão ser executadas se respeitarem a Constituição e se «os órgãos de poder agirem na interpretação e defesa dos interesses dos portugueses e do País, e jamais na sujeição a poderes externos, ou assumindo os objectivos dos agiotas que nos exploram e roubam». Ao falarem e agirem «como se o Estado democrático não existisse» – acusou – têm como objectivo «desresponsabilizar politicamente as forças políticas que se preparam para executar as medidas».
«Aos trabalhadores e, em particular, às jovens gerações», a Intersindical apelou a que se mobilizem, para «fazer da pré-campanha e da campanha eleitoral um tempo e um espaço de apresentação séria de problemas e propostas», para «dar conteúdo à agenda política e continuidade à importante luta social que vimos desenvolvendo».
Dos partidos políticos, a central exige clarificação de posições, especialmente quanto a duas matérias:
- uma eventual revisão da Constituição «tipo golpe de Estado», de modo a acolher posições de «total ausência de respeito pelo povo, pela soberania nacional e pelo regime democrático»;
- e a inclusão, nos programas eleitorais, do compromisso que assumem com as medidas da UE e do FMI, pois «escondê-lo significará uma burla aos portugueses e um atentado à democracia».
Votar e mudar
Defendendo que «é tempo de participar e de votar para mudar as políticas», Carvalho da Silva – tal como outros dirigentes, em dezenas de intervenções noutras iniciativas deste 1.º de Maio – relembrou que «a crise tem causas e responsáveis» que não podem ser ignorados.
Assim, «foram as políticas dos sucessivos governos do PSD, do PS e do CDS, bem como as práticas e negócios dos detentores do poder económico e financeiro, que, em nome de uma falsa modernização, desindustrializaram o País, fragilizaram ou não desenvolveram a agricultura e as pescas, fizeram uma utilização mais que duvidosa dos fundos comunitários, criaram uma teia de parcerias público-privadas e negócios escandalosos de fornecimento de serviços ao Estado, de gestão de concursos, de derrapagem dos orçamentos das obras públicas», e «ao mesmo tempo, fizeram proliferar a economia clandestina, a fraude e a evasão fiscais, o compadrio e a corrupção e fragilizaram perigosamente a Justiça»; e «foram eles que incentivaram a precariedade que destrói emprego, que cavaram desigualdades»; são esses que «insistem na redução do poder de compra dos salários e das pensões, quando, em tempo de crise, os lucros dos accionistas das grandes empresas aumentam e ultrapassam os 12 mil milhões de euros, já limpos de impostos».
A exigência de mudança e as propostas alternativas que a CGTP-IN apresenta apontam precisamente em sentido oposto.
Na intervenção de Carvalho da Silva foram lembrados os objectivos que mobilizam os trabalhadores para lutar com mais determinação – contra o desemprego e a precariedade; contra os cortes nos salários e alterações que piorem a legislação laboral; contra os cortes nas funções sociais do Estado e nos serviços públicos; contra a redução das prestações sociais, os ataques à saúde e ao ensino, e o aumento dos preços de transportes e de outros serviços e bens essenciais; contra as privatizações e o objectivo de transformar o direito de todos em negócio de alguns, como já acontece com a electricidade ou os combustíveis; contra mais impostos cegos, enquanto a banca e sectores privilegiados são favorecidos.
Foram igualmente enunciadas propostas que concretizam a ideia de que «é possível conciliar a redução do défice com o indispensável crescimento económico e evitar rupturas sociais», «com a mobilização dos portugueses». A Inter defende, designadamente:
- Renegociar a dívida, com alargamento dos prazos para a redução do défice e abaixamento das taxas de juro a pagar;
- Assegurar investimento privado e público, de modo a salvaguardar o crescimento económico e a criação de emprego, com reorientação do crédito a favor das actividades produtivas;
- Obter recursos fazendo pagar mais quem mais riqueza tem, e combater a fraude e a fuga fiscais e a economia clandestina;
- Desenvolver a produção nacional na agricultura e nas pescas, na indústria e no sector mineiro ou em várias áreas de serviços, evitando importações;
- Proteger e aumentar o poder de compra dos salários e das pensões;
- Garantir apoios efectivos ao emprego, combater eficazmente a precariedade, recentrar a formação e qualificação, dinamizar a negociação e a contratação colectiva no rumo do progresso;
- Manter as funções sociais do Estado e assegurar políticas de coesão da sociedade, começando por alargar a protecção aos desempregados.
Manifestações a 19 de Maio
Num tempo que «é de combate a silêncios e medos e de forte afirmação de protesto» e que «exige grande esforço de unidade entre os trabalhadores, forte unidade sindical em torno de conteúdos concretos», a CGTP-IN apela «ao combate pela verdade na identificação dos problemas, pelo esclarecimento, pela solidariedade, construindo relações de forças mais favoráveis aos trabalhadores, com a sua participação, a partir dos locais de trabalho e aumentando a mobilização e a acção em torno das nossas propostas».
Pelas justas exigências apresentadas e contra as medidas graves em preparação, a central decidiu convocar duas grandes manifestações para quinta-feira, 19 de Maio, em Lisboa, do Palácio de São Bento até Belém, e no Porto, na Praça dos Leões, contra a ingerência da UE e do FMI.