Seis meses
A televisão, que é a mãe de todas as minhas sabedorias acerca do País e do mundo, tal como de resto acontece com a generalidade dos portugueses, informou-me que um desse punhadão de génios que ganha mais num mês de salários do que um reformado comum em toda a sua velhice preconizou a redução para seis meses do subsídio de desemprego. Trata-se de um gestor, é claro, e nem sequer o mais bem pago dos que por aí labutam, mas lamentavelmente esqueci o seu nome, o que não surpreenderá muito porque gestores razoavelmente pagos há muitos, e é natural que os confundamos uns com os outros. O que sei, isso sim, também porque a TV mo disse, é que este senhor gestor talvez chamado António Mexia, talvez não, foi convidado pelo dr. Pedro Passos Coelho para lhe dar conselhos talvez até a título generosamente gracioso, e assim se vê a força do conselheirismo escolhido pelo provável sucessor do engenheiro Sócrates em São Bento. Se na verdade se tratou do dr. Mexia, poderá registar-se que é talento a ser pago à velocidade de cerca de 600 contos por dia, números redondos e moeda antiga, já se vê, contas feitas por quem sabe fazê-las, não por mim, incompetente para tal proeza. Assinale-se que o senhor não está no pódio dos três mais bem pagos, que não recebe horas extraordinárias, que o que lhe valerá serão mais umas compensações que não deixará de ter, espero, género cartão de crédito, combustíveis por conta da casa, coisas assim, mas reconhecer-se-á sem custo que há pior. Com tudo isto, note-se que ainda lhe sobram tempo e inspiração para se desentranhar em propostas para salvar o País, designadamente esta do limite de seis meses para que um desempregado, ainda que provavelmente passando já alguma fominha, pois bem se sabe que o subsídio de desemprego para o qual aliás descontou não é uma coisa por aí além, não se transfira imediatamente da condição de trabalhador despedido para a de mendigo. A menos, entenda-se, que o dr. Mexia (ou outro por ele, talvez antes António Carrapatoso, nesse caso e para seu mal com valores mais baixos que os acima indicados, perdoe-se-me a dúvida que não consigo ultrapassar) se prontifique a entregar-lhe um posto de trabalho na empresa que administra, hipótese contudo improvável porque a criação de emprego por um gestor de sucesso é menos fácil que a cura de um caso de Alzheimer, dado que em matéria de reemprego não consta que o Céu ajude.
Uns versos de Castro Alves
O que o sábio conselheiro do dr. Passos não terá explicado, que se saiba, decerto por não lhe sobrar tempo para se alongar em reflexões complementares, é o que acontecerá por este País fora se, ou quando, esta sábia medida for aplicada. É que seis meses passam num instante, são um breve sopro no galopar do tempo, e para mais acontece que com frequência a situação de desemprego é precedida por um período de salários em atraso, o que para o trabalhador significa acumulação de responsabilidades financeiras não pagas, contracção de dívidas, afundamento geral do seu quotidiano. Como temos mais tempo para pensar nestas coisas que o dr. Mexia ou o dr. Carrapatoso, por sinal ambos Antónios para minha maior indecisão, podemos imaginar um Portugal cheiinho de trabalhadores desempregados há mais de seis meses, e por consequência privados do aliás magro apoio recebido durante esse período, tanto mais que todas as previsões oficiais ou oficiosas, não sei bem porque também umas e outras se confundem no fluxo informativo que a televisão nos fornece, apontam para um próximo crescimento exponencial ou não do número de desempregados. Será que essa massa de gente vai resignar-se a ver a sua família condenada à mais variada gama de privações sem um deslize para o desespero? Será que não fará mais que uma promessa aos céus, talvez uma romagem a Fátima com promessa acoplada? E, num outro plano, será que o envio para os territórios da miséria de muitos milhares de trabalhadores será compatível com uma sociedade democrática, com a Constituição? Na verdade, parece que o douto alvitre do sábio conselheiro do dr. Passos tem uma inquietante vertente de imprudência. Em contrapartida, pode servir de orientação para quem queira conhecer o pensamento e as intenções de quem já está a mostrar caminhos aos que se preparam para ser o próximo poder político em Portugal. Sobe-me à tona da memória uns versos do poeta brasileiro Castro Alves escritos a propósito da escravatura por ele então denunciada. Coíbo-me de os transcrever aqui porque seriam excessivos. Mas a verdade é que os lembrei, e não decerto por acaso.