Engels a Conrad Schmidt (em Berlim) (Conclusão)

Londres, 27 de Out[ubro] de 1890

No que toca aos domínios ideológicos que ainda flutuam mais alto no ar (religião, filosofia, etc.), eles têm uma componente [Bestand] pré-histórica, encontrada e retomada pelo período histórico – a que nós hoje chamaríamos disparate. Essas diversas representações falsas da Natureza, da constituição do próprio homem, de espíritos, forças mágicas, etc., só negativamente têm algo de económico por fundamento; o baixo desenvolvimento económico do período pré-histórico tem como complemento, mas também, por vezes, como condição e mesmo como causa, as representações falsas acerca da Natureza. E mesmo se a necessidade económica foi – e cada vez se tornou mais – a mola principal do conhecimento progressivo da Natureza, seria, no entanto, pedante querer procurar causas económicas para todo esse disparate [próprio] de [um] estado primitivo. A história das ciências é a história da gradual eliminação desse disparate ou da sua substituição por um novo disparate, mas sempre menos absurdo. As pessoas que se ocupam disso pertencem, por sua vez, a esferas particulares da divisão do trabalho e apresentam-se como trabalhando um domínio independente. E, na medida em que formam um grupo autónomo no interior da divisão social do trabalhado, nessa medida, as suas produções (e inclusivamente os seus erros) têm uma influência retroactiva sobre todo o desenvolvimento social, mesmo sobre o [desenvolvimento] económico. Mas, em tudo isto, elas próprias estão, por sua vez, sob a influência dominante do desenvolvimento económico. Por exemplo, na filosofia, isto é muito fácil de demonstrar para o período burguês. Hobbes foi o primeiro materialista moderno (no sentido do século XVIII), mas [era] absolutista, num tempo em que a monarquia absoluta estava, em toda a Europa, no seu apogeu e travava, em Inglaterra, uma luta com o povo. Locke era, na religião como na política, filho do compromisso de classes de 1688 (5). Os deístas ingleses (6) e os seus continuadores mais consequentes – os materialistas franceses – foram os autênticos filósofos da burguesia – os franceses mesmo da revolução burguesa. Na filosofia alemã de Kant até Hegel vem ao de cima o pequeno-burguês [Spiessbürger] alemão – ora positivamente, ora negativamente. Mas, como domínio determinado da divisão do trabalho, a filosofia de cada época tem por pressuposto um determinado material de pensamento que lhe foi transmitido pelos seus antecessores e de onde ela parte. E vem daí que países economicamente atrasados possam, na filosofia, tocar como primeiros violinos: a França no século XVIII face à Inglaterra, sobre cuja filosofia os franceses se fincaram; mais tarde, a Alemanha face a ambas. Mas, em França como na Alemanha, a filosofia era, tal como o florescimento geral da literatura naquele tempo, também resultado de um surto económico. A final supremacia do desenvolvimento económico, neste domínio também, para mim está estabelecida, mas tem lugar dentro das condições prescritas pelo próprio domínio singular: na filosofia, por exemplo, pela acção [Einwirkung] de influências [Einflüsse] económicas (que, na maior parte dos casos, operam, por sua vez, apenas sob o seu disfarce político, etc.) sobre o material filosófico disponível que os antecessores forneceram. A economia não cria aqui nada a novo (7), ela determina porém a maneira [Art] da alteração e da ulterior formação do material de pensamento encontrado, e mesmo isto, na maioria dos casos, indirectamente, na medida em que são os reflexos [Reflexe] políticos, jurídicos, morais, que exercem a acção [Wirkung] directa maior sobre a filosofia.

Acerca da religião, disse o que era mais necessário na última secção sobre Feuerbach (8).

Se, portanto, Barth (9) quer dizer que nós negamos toda e qualquer retroacção dos reflexos [Reflexe] políticos, etc., do movimento económico sobre esse mesmo movimento, luta simplesmente contra moinhos de vento. Basta, contudo, que ele vá ver apenas ao 18.Brumaire [18 de Brumário] (10) de Marx, onde se trata quase só do papel particular que as lutas e eventos políticos desempenham, naturalmente no interior da sua dependência geral de condições económicas. Ou ao Kapital [Capital], à secção sobre, por exemplo, o dia de trabalho (11), onde a legislação – que, no entanto é um acto político – actua tão decisivamente. Ou à secção sobre a história da burguesia (capítulo 24) (12). Ou a por que é que nós lutamos então pela ditadura política do proletariado se o poder político é economicamente impotente? A força [Gewalt] (isto é, o poder do Estado [Staatsmacht]) é também uma potência [Potenz] económica!
Mas, para criticar o livro (13) não tenho agora tempo nenhum. O III volume (14) tem primeiro que sair e, além disso, creio que também, por exemplo, Bernstein poderia fazer isso inteiramente bem.

O que falta aos senhores todos é dialéctica. Eles só vêem sempre: aqui causa, ali efeito. Nem uma vez sequer vêem que isso é uma abstracção vazia, que no mundo real semelhantes oposições polares metafísicas apenas existem em crises, que todo o grande curso [Verlauf] decorre, porém, na forma da acção recíproca – mesmo se de forças [Kräfte] muito desiguais, das quais o movimento económico é de longe a mais forte, a mais originária, a mais decisiva; que aqui nada é absoluto e tudo é relativo, isso é coisa que eles nem sequer vêem; para eles, Hegel não existiu. […].

 

(5) Trata-se do golpe de Estado de 1688 (a que a historiografia burguesa inglesa chama «revolução gloriosa»), com o qual foi derrubada na Inglaterra a dinastia dos Stuarts e instaurada a monarquia constitucional (1689), encabeçada por Guilherme de Orange e baseada num compromisso entre a aristocracia latifundiária e a grande burguesia.

(6) Deísmo: doutrina filosófico-refligiosa que reconhece Deus como causa primeira racional impessoal do mundo, mas nega a sua intervenção na vida da Natureza e da sociedade.

(7) Em latim no texto: de novo.

(8) Trata-se da obra de F. Engels, Ludwig Feuerbach und der Ausgang der klassischen deutschen Philosophie[Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica]; ver Marx/Engels, Obras Escolhidasem três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t. III, 1985, pp. 416-419.

(9) Cf. Paul Barth, Die Geschichts Philosophie Hegels und der Hegelianer bis auf Marx und Hartmann. Ein kritischer Versuch [A Filosofia da História de Hegel e dos Hegelianos até Marx e Hartmann. Um Ensaio Crítico], Leipzig, 1890.

(10) Ver Marx/Engels, Obras Escolhidasem três tomos, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, t. I, 1982, pp. 417-512.

(11) Trata-se do capítulo 8 da III secção. Ver K. Marx, O Capital, Edições «Avante!»-Edições Progresso, Lisboa-Moscovo, Livro Primeiro, Tomo I, 1990, pp. 262-346.

(12) Trata-se do capítulo sobre a chamada acumulação original. Ver K. Marx, O Capital, Edições «Avante!», Lisboa, Livro Primeiro, Tomo III, 1997, pp. 807-862.

(13) Ver nota (9).

(14) De O Capital.

 

Publicado pela primeira vez na revista Sozialistische Monatshefte, n.os 20-21, 1920. Publicado segundo o manuscrito. Traduzido do alemão.

 

Selecção: Francisco Melo
Tradução: José Barata-Moura



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