Cargos I

O PS de Sócrates e o PSD de Passos Coelho desunham-se, actualmente, numa empreitada de «apresentação de candidaturas» às eleições legislativas do próximo dia 5 de Junho, que mais não são que pretextos para propaganda fácil e barata, dado que, docilmente, a generalidade dos órgãos de comunicação social não perdem pitada destes autênticos entremezes eleiçoeiros.

Na passada semana o PS apresentou solenemente o seu «programa eleitoral» (os «programas eleitorais» distrito a distrito seguir-se-iam depois, tal como no PSD) onde, a par de «propostas estratégicas» às carradas, surgiu uma promessa isolada, concreta e rutilante, pronta a ficar «no ouvido» do maralhal: se o PS «for de novo governo», tratará de «eliminar mil cargos públicos».

Esperemos que tais cargos públicos sejam, ao menos, daqueles que «pesam» forte e feio no Orçamento, pelos chorudos ordenados pagos...

Entretanto, é bom lembrar ao PS que não faz favor nenhum em «eliminar mil cargos públicos»: afinal de contas, foi o mesmíssimo PS (com o mesmíssimo Sócrates em primeiro-ministro) que criou essa (e outras...) caterva de cargos públicos.

Quem é capaz de não achar graça à coisa é o arraial de «apoiantes» e afins que têm beneficiado desses cargos agora a extinguir mas, como diria António Vitorino (embora num contexto mais eufórico)... habituem-se! (Vitorino falava, impante, após a vitória por maioria absoluta de Sócrates, mas, notoriamente, a citação merece ser-lhes devolvida, seis anos depois).

 

Cargos II

 

Perante esta nova promessa do engenheiro Sócrates de «eliminar mil cargos públicos» somos, forçosamente, impelidos a nos lembrarmos de outra semelhante, igualmente com números, feita pelo mesmo Sócrates em vésperas da sua maioria absoluta.

Prometia ele, então, a «criação de 150 mil novos postos de trabalho» no País.

Seis anos depois não só não não criou 150 mil postos de trabalho, como proporcionou a destruição de mais de 300 mil.

Mas como a nova promessa de Sócrates não visa lançar trabalhadores no desemprego, mas sim supostos «quadros superiores», os visados podem ficar descansados: o «sr. Engenheiro» decerto não vai desamparar gente fina.

Além disso, o homem é coerente: nunca cumpre promessas.

 

Cadeias

 

Os números estatísticos aí estão e, como de costume, não enganam: depois de um recuo até 2008, de então para cá a população prisional está a aumentar, em Portugal, atingindo hoje (três anos depois) uma taxa de ocupação de praticamente 100% (para sermos exactos, de 99,1% dos lugares disponíveis nas 27 cadeias do País).

No global, a situação mais crítica verifica-se nos estabelecimentos prisionais regionais, com a grande maioria a exceder, já, a sua capacidade.

Mas, também no global, a situação é toda ela crítica no País inteiro, com o aumento evidente de duas coisas – a marginalidade criminosa e a repressão policial.

É o caldo típico da miséria, aqui ou nas favelas do Rio de Janeiro, aqui ou em qualquer parte do mundo onde a exploração desenfreada e a injustiça social não parem de crescer.

Como está a acontecer em todo o lado. E, em Portugal, em passo acelerado...



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