O povo organiza-se
O movimento popular que derrubou o ditador Ben Ali, em 14 de Janeiro, na Tunísia, continua activo lutando por verdadeiras mudanças democráticas que dêem resposta às reivindicações económicas e laborais dos trabalhadores.
Tunisinos criam comités de defesa da revolução
A pressão das massas fez cair os 24 novos governadores nomeados pelo governo de transição, 19 dos quais eram membros do RCD, o partido de Ben Ali (Reunião Constitucional Democrática).
Apesar de a actividade do RCD ter sido suspensa, dia 6, os resquícios do antigo regime continuam presentes no governo, na polícia, na administração e no exército, bem como em todo o tecido económico.
No entanto, sob a pressão popular, o presidente interino promulgou finalmente, no sábado, 19, a amnistia geral que abrange todos os detidos ou processados por actividades políticas ou sindicais. Recorde-se que o projecto de diploma foi aprovado ainda em 20 de Janeiro pelo primeiro governo de transição.
No dia 15, foi levantado o recolher obrigatório, mantendo-se no entanto o estado de emergência para «prevenir atentados à segurança do país e assegurar a protecção dos cidadãos e dos bens públicos e privados», segundo o comunicado do Ministério do Interior citado pela agência tunisina TAP.
Em simultâneo, as massas tomam a iniciativa e fazem ouvir a sua voz. Segundo relata o quinzenário espanhol Diagonal (18.02), as greves multiplicam-se e sucedem-se as manifestações na capital e noutras cidades. Em muitas localidades as populações constituíram comités de defesa da revolução, e há casos, como em Sidi Bourouisse, onde se criaram conselhos populares que tomam as suas decisões em assembleias.
Em entrevista ao referido jornal, Mohamed Msalmi, secretário-general da União geral dos Trabalhadores de Tunes, em Ben Arous, uma das regiões industriais mais importantes do país, relata que nas últimas três semanas «tem havido greves em sucursais de multinacionais, empresas de investidores estrangeiros e companhias locais e temos conseguido contratos permanentes para centenas de trabalhadores, bem como o aumento sistemático dos salários».
Neste período e apenas nesta região, a UGTT sindicalizou sete mil trabalhadores e formaram-se 35 novos comités de empresa. Com os seus 500 mil associados, o papel da UGTT foi decisivo para a queda de Ben Ali e continua a pesar fortemente no evoluir da situação.
Todavia, Msalmi avisa que o regime ainda não foi completamente derrubado e que, «por isso, temos de usar o termo “revolução” com muito cuidado».
O tesouro do ditador
A televisão nacional tunisina surpreendeu o país, no sábado, com a transmissão de imagens revelando o esconderijo de uma parte da imensa fortuna acumulada pelo antigo ditador Ben Ali.
Dissimulados atrás de uma biblioteca, num dos palácios do presidente deposto, foram descobertos cofres de grandes dimensões com centenas de maços de notas de dinares tunisinos, mas sobretudo euros (notas de 500) e dólares, num montante estimado de 175 milhões de euros.
No mesmo local estavam ainda escondidas várias pedras preciosas, como diamantes e esmeraldas, colares e outras peças em ouro, e ainda garrafas de vinho de grande valor.
Esta «caverna de Ali Baba» foi descoberta por uma comissão nacional constituída para investigar a corrupção e abuso de poder do antigo regime.
A fortuna de Ben Ali foi calculada pela revista Forbes em cinco mil milhões de euros e terá sido constituída, em particular, durante as privatizações efectuadas nas últimas duas décadas, que lhe permitiram apropriar-se de sectores inteiros da economia. As autoridades financeiras do país revelaram que o clã Ben Ali era proprietário de 90 empresas e tinha participações em 123 outras.