Jerónimo de Sousa contesta medidas e acusa Governo

A opção pelo capital

«Onde é que isto vai parar?», foi a pergunta posta por Jerónimo de Sousa ao primeiro-ministro no debate quinzenal, depois de divulgadas na véspera as linhas gerais e preliminares do Orçamento do Estado para o próximo ano.

Não é coragem soçobrar aos poderosos

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Esta foi uma das perguntas que ficou sem resposta, sexta-feira passada, num debate onde o Secretário-geral do PCP criticou o chefe do Governo por este, entre merecer a confiança do capital financeiro e a confiança dos portugueses, ter optado claramente por aquele.

O Governo «tem um dilema para resolver e fez uma opção entre a confiança do capital financeiro, dos famosos mercados, e a confiança dos portugueses», sublinhou, acrescentando que «a serenidade e a segurança» que estes deveriam sentir em relação aos seus salários, empregos e direitos», com essas, «o senhor primeiro-ministro não se importa, antes prefere acalmar os mercados».

Tarefa de apaziguar a gula do grande capital financeiro que estará votada ao fracasso, na perspectiva do dirigente comunista, que se mostrou convicto de que não é possível «aplacar a ganância e o desejo de lucro – objectivo central dos especuladores».

«Os especuladores especulam. Não se pode acabar com isso cedendo aos especuladores», referiu, não sem antes ter desafiado José Sócrates a esclarecer se considera de facto que estas «medidas profundamente gravosas de retrocesso social, de bloqueio da nossa economia, conseguirão acalmar os mercados».

«É o orçamento que o País precisa», foi a resposta de José Sócrates, dizendo que este era o OE para «fazer face a uma crise internacional centrada nas questões que têm a ver com a dívida soberana».

E repetiu que a esse cenário internacional ninguém escapa - ainda há poucos meses garantia a pés juntos o contrário e que o desempenho de Portugal era exemplar – e que «todos os países, como nós, com uma dívida e um défice elevados, têm de responder àquilo que é a suspeição generalizada dos mercados relativamente à capacidade para honrar os compromissos».

«Temos que sair rapidamente desse cenário», insistiu, dizendo que este OE visa sobretudo garantir ao País que no final de 2011 «teremos uma situação orçamental capaz de reforçar a credibilidade da nossa economia, assegurar o seu financiamento e retirar Portugal desse cenário internacional e dessa ameaça séria».

 

Domínio do capital

 

Jerónimo de Sousa, na réplica, lembrou ao chefe do Governo que «nunca é um acto de coragem soçobrar ou submeter-se aos poderosos, ao capital financeiro, aos especuladores, mesmo sabendo que há também a pressão de Bruxelas, do BCE».

E observou que escutar as palavras de José Sócrates é «ouvi-lo repetir o que já disse no OE para 2010, o que já disse no PEC I, o que já disse no PEC II quanto às medidas adicionais, e agora com o anúncio das recentes medidas de corte de salários, de deduções específicas, de medidas contra os reformados e pensionistas».

«Até se podia admitir termos de fazer sacrifícios. O senhor primeiro-ministro é capaz de garantir aqui na Assembleia da República que, com estas medidas, em vez de ficar melhor não vamos ficar pior no futuro? Nós pensamos que sim, porque a economia tem leis. Se se corta no investimento, salários, direitos, pensões, então diga como é que a economia se vai desenvolver, ou não vamos ter novamente uma situação de estagnação ou de recessão?», perguntou o líder comunista.

José Sócrates, fugindo à questão, limitou-se a bater na tecla de que «o País ficaria pior se não tomasse estas medidas», insistindo que o problema está na «desconfiança dos mercados», pelo que, do seu ponto de vista, importa «agir rapidamente para tirar Portugal do conjunto de países mais seriamente afectados na dúvida, incerteza e na confiança».

 

«Acalmar os mercados»

 

«Em relação às medidas que estão em cima da mesa, não sendo economista, sei uma coisa: havendo menos investimento, mais desemprego, se não se confia em Portugal a produzir, no desenvolvimento, na defesa do nosso aparelho produtivo e na produção nacional, bem pode dizer o que quiser porque vai verificar-se um retrocesso, menos receitas, mais dívida, mais desconfiança dos tais mercados», respondeu Jerónimo de Sousa.

«Isto é tão linear, tão simples, não precisamos de nenhuma tirada de cátedra», acrescentou, fazendo notar que «o drama maior é que com esta opção do Governo há portugueses que não sabem o que hão-de fazer à vida, que hoje não têm saída e que fazem esta pergunta lógica: para quê? Para acalmar os mercados, diz o primeiro-ministro».

Jerónimo de Sousa pôs ainda o dedo na ferida ao lembrar que «se o directório das potências da União Europeia quisesse, num dia acabava com a especulação e com os especuladores».

E a este propósito assinalou que não basta, como faz José Sócrates, dizer que «tem dor de alma ou apertos de coração». «O que gostaríamos de saber é o que o Governo português faz em Bruxelas para combater esta situação, para levar a que esse directório de potências resolva o problema, acabando com a especulação», frisou, sem obter resposta do primeiro-ministro.

 

Não à resignação


À «roda viva» dos banqueiros na passada semana, pressionando PSD e Governo, reagiu o Secretário-geral do PCP para concluir que para aqueles o Orçamento do Estado é o que corresponde aos seus interesses.

Em campo oposto está a generalidade dos portugueses, os quais, asseverou, «não aceitam a tese da resignação» e saberão «responder» à situação, ao contrário do primeiro-ministro, a quem acusou de se «resignar e baixar os braços em vez de ter um posicionamento firme e patriótico».

E depois de lembrar que «quem manda aqui não são os executantes da política de direita, são os seus mandantes», mostrou-se convicto de que tais executantes «não ficarão na história tendo em conta o mal que estão a fazer ao País, aos trabalhadores e ao povo português».



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