O voto da esquerda
Os restantes meses de 2010 prometem uma agudização da luta social e política em Portugal, incluindo a luta nacional de trabalhadores no dia 29 de Setembro e as formas de luta unida que certamente se seguirão (a somar às inúmeras lutas nos diversos sectores e locais de trabalho); a cimeira da NATO em Lisboa, que será recebida com um valente «Paz Sim, Nato Não» no dia 20 de Novembro, na Avenida da Liberdade; e a campanha para Presidência da República (PR).
Naturalmente estas várias frentes de luta não são desconexas. O agravamento da exploração capitalista e da injustiça social, no contexto de crise estrutural do sistema, conduz ao crescimento da resistência dos trabalhadores: não são os responsáveis pela crise que pagam a conta (estes recebem subsídios estatais, pois o seu colapso é «inconcebível»), mas sim a vasta maioria, os trabalhadores, reformados, desempregados e jovens que apertam o cinto até sufocarem mas lutam para preservar os direitos históricos conquistados com sangue.
A crescente exploração a nível global está intimamente ligada ao crescimento do militarismo e ao envolvimento conjunto dos EUA com os seus aliados (sejam eles a Coreia do Sul, Israel ou a União Europeia) em agressões imperialistas na busca de novas áreas de influência, conquista de novos mercados, acesso a recursos naturais e destruição de rivais emergentes. Quem duvide deste crescimento que acompanhe o aumento de despesas orçamentais dos EUA e da União Europeia na área militar. Não é paradoxal que sob o presidente (prémio Nobel da Paz) Barack Obama o orçamento militar dos EUA continue a aumentar? E quantos cidadãos da UE se dão conta de que enquanto o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia acenam a batuta aos governos nacionais para imporem medidas de austeridade e conterem as despesas orçamentais no sector público, a despesa militar Europeia aumenta, à custa dos estados membros, quer para adaptar as forças nacionais às exigências e aventuras da NATO, quer para criar uma agência militar federal?
Tanto investimento militar faz prever uma nova estratégia, uma postura mais exigente do ponto de vista de recursos. A cimeira da NATO, que irá decorrer em Portugal, pretende precisamente consagrar a nova estratégia da NATO, que efectivamente irá auto conceder-se o direito de intervir em qualquer parte do mundo onde os seus interesses se vejam ameaçados. «Interesses» entendidos da forma mais lata: segurança interna dos estados, energia. ambiente, pressões migratórias. Ou seja, o posso, quero e mando.
Quando Durão Barroso recebia Bush nas Lajes, algumas figuras do PS atreviam-se a vir à rua protestar contra o conceito de guerra preventiva e a invasão dos EUA no Iraque. E agora, que o PS está no Governo e os altos dignatários da NATO vão ser recebidos por José Sócrates, será que o militante histórico desse partido que ainda se afirma socialista, esse candidato que alega ser um espaço de convergência da esquerda, vai dirigir uma palavra de crítica à NATO, à escalada armamentista ou à nova estratégia ultra-abrangente? Duvido.
Lanço o desafio aos que se entendem como sendo da esquerda e pretendem votar Alegre, que tenham presente que ao votar para a PR irão também contribuir para eleger o chefe supremo das Forças Armadas Portuguesas. Um candidato que aceita esta política de subserviência face aos grande poderes no seio da NATO; que aceita o crescente militarismo da União Europeia; que não se compadece com colocar a vida dos nossos militares ao serviço de interesses estrangeiros, não merece nem um só voto da esquerda.
Ao assumir-se o cargo de PR, jura-se fazer cumprir a constituição, incluindo o Art.º 7 onde se «preconiza a abolição do imperialismo (...) [e] a dissolução dos blocos político-militares», e zelar pela soberania nacional. Só um candidato que seja capaz inequivocamente e sem hesitações de afirmar «Paz sim, NATO Não» está em condições de cumprir fielmente esse juramento. Esse candidato é Francisco Lopes.