O canto viciado
Um destes dias pudemos ouvir na TV uma jovem intérprete de fados, ou sobretudo de fados, a cantar uma canção de José Afonso. Não foi nada de raro e muito menos de escandaloso: há muito que as canções de José Afonso são interpretadas por gente das gerações que se lhe seguiram, umas vezes muito bem, outras não tanto, e bem se pode dizer que na generalidade dos casos a reabordagem da obra do grande cantor da Resistência configura uma homenagem ao seu enorme talento, mesmo quando não significa uma aproximação ainda que mínima ao seu percurso cívico. É certo que esta regra geral, se regra geral chega a ser, admite excepções: é possível que, para alguns, o assalto a alguns temas de José Afonso apareça como uma antecipada garantia de algum êxito comercial. Por outro lado, acontece também que algumas interpretações nos fazem desejar o silêncio como benfazeja alternativa ao que estamos a ouvir, mas será de bom senso admitir que esses casos infelizes são o preço que se paga pelo facto muito positivo de José Afonso continuar de algum modo vivo e presente no quadro da música portuguesa. Nos sons, nos poemas que claramente se elevam muito acima do letrismo habitual no cançonetismo luso quer agora quer então, na memória ainda que talvez imprecisa do que o autor foi e do que o motivou. Não, porém, ou talvez apenas raramente, na partilha e retoma das suas motivações, no prolongamento para a actualidade das denúncias contidas no canto de José Afonso. Bem se sabe que, embora longe do imediatismo que caracterizou o trabalho de outros que resistiram e lutaram cantando, também para o autor da «Grândola» (mas também de «A Morte Saiu à Rua», mais directa, que José Afonso levou a um festival no Rio bem antes de 74) a canção era uma arma, como então muito se repetia, e bem. E deixou de se repetir.
Talvez castrado
É certo que quem passa boa parte do seu tempo a ver e ouvir televisão corre o risco de ficar com um entendimento destorcido de algumas realidades, e não é absurdo que uma delas seja a do actual panorama musical português na área da chamada música ligeira. A gente dá de caras e de ouvidos com o que se passa em programas ditos de entretenimento quer na RTP quer noutras operadoras e arrisca-se a ficar por longo tempo desgostoso da vida: não poucas vezes, aquilo a que talvez ainda se possa chamar cançonetismo à falta de outra designação situa-se bem abaixo do grau zero do mérito e revela-se como expressão desesperante de uma degradação cultural generalizada. É, sem dúvida, um canto sem armas, mas é também um canto (com perdão da palavra, excessiva para o que designa) reduzido a pretexto para ilusões de carreiras «artísticas» de naufrágio rápido e imediatamente substituíveis por novas ilusões e novos naufrágios, pois a máquina de destruir miragens não pára de engendrar destroços. Pode então emergir a reflexão de que é natural que as coisas sejam agora assim, sem qualidade, sem consciência e sem vergonha, pois também a canção e seus arredores é produto do terreno onde desponta. Sem saudades de repressões criminosas de toda a ordem, como espero ser óbvio, recordo uns versos de Sidónio Muralha em que o poeta lembrou que as tentativas de imposição dos medos libertam o canto dos poetas. Pergunto-me, porém, se no nosso actual País não há razões para medos e para as consequentes indignações. Se a aproximação do desemprego jovem não suscita medo e indignação. Se a fome, dita insuficiência alimentar, não é motivo para cantos de revolta. Se a troca de subsídios de desemprego por submarinos inúteis não estimula o protesto a exprimir por várias formas, incluindo o do canto inconformado. E, tanto quanto sei, é o silêncio que me responde, talvez apenas porque quanto a tudo isto a televisão nada me diz. Ela, que devia ser «janela para o mundo», nem sequer é janela para o meu País. Ela, que talvez esteja neutralizada por invisíveis e sofisticadas mordaças ou, menos dramaticamente, por sábias filtragens. A menos que a explicação seja outra e mais ampla: a de uma espécie de vapores que, lançados por via mediática sobre um território inteiro, esterilizam a capacidade de criar e estimulam um mimetismo que se multiplica em sucedâneos do canto pleno, num canto afinal viciado porque castrado. Isto é, incapaz de ser arma.