A vida associativa ao serviço do povo
A vida associativa irrompeu na vida do País nos finais do século XIX. Não que antes não existissem já clubes, mas a difusão do associativismo sob todas as suas formas constitui um importante factor para a cultura e formação das populações até à imposição da ditadura salazarista. Mas mesmo durante os 48 anos em que ela ditou os destinos do País, o associativismo popular enfrentou todos os obstáculos e constitui, em muitos casos, uma das mais importantes formas de promover a cultura e de resistir à censura e ao empobrecimento social e cultural de muitas comunidades.
Grande número dos clubes desportivos foi fundado a partir da iniciativa dos trabalhadores que, como é natural, tiveram de enfrentar grandes dificuldades e obstáculos. Todavia, com a grande «explosão» do associativismo desportivo popular a partir de 1974, a intervenção dos trabalhadores nos «pequenos» clubes populares (afinal mais de 90% do número total de clubes desportivos em Portugal) acentuou-se enormemente (verifica-se um crescimento de 110% durante a década de 70, referido, fundamentalmente, ao período de 1974 a 1980).
Como se sabe, não existe nenhum estudo global verdadeiramente fiável sobre a questão associativa, o que, diga-se de passagem, permite afirmar as maiores calinadas sobre este assunto sem receio de desmentido. O último estudo, finalmente promovido com «alguma» intencionalidade, dá-nos conta do aumento verdadeiramente explosivo do número de clubes, que surgiram criados maioritariamente por vontade popular (apesar da falta de investigação é possível afirmar a partir da experiência de intervenção realizada pela Federação Portuguesa das Colectividades de Cultura e Recreio que o número de clubes de origem popular tem estado sempre a crescer).
Sem que se possuam informações seguras sobre a origem social dos dirigentes e técnicos (frequentemente uma só pessoa) que dirigem e fazem viver os cerca de 12 000 clubes desportivos populares actuais apontados como existentes, é no entanto possível afirmar que uma grande percentagem é constituída por trabalhadores. A verdade é que num número substancial de casos, os clubes populares surgiram e vieram a afirmar-se durante o anterior regime como uma forma de resistência à injustiça social e de luta pela prossecução de direitos fundamentais (especialmente à saúde, à educação, ao uso enriquecedor do tempo livre) e pela tradução concreta dos princípios da igualdade e da solidariedade. O aparecimento dos novos clubes obedeceu a intenções semelhantes, ainda que, como é natural, referidas à nova realidade social tornada possível com o 25 de Abril. Se, por um lado, a profecia de alguns dos nossos mais proeminentes «pensadores» universitários quanto ao desaparecimento progressivo dos clubes populares não se verificou, por outro lado, as intenções expressas ou implícitas na criação dos novos clubes (em termos gerais) não são substancialmente diferentes das anteriores: a participação, a intervenção cívica, o trabalho desinteressado, a luta pela justiça social do acesso às práticas diferenciadas, a solidariedade, encontram agora no conceito de construção da nova cidadania um importante reforço ideológico.
A percepção de que a vida associativa constitui uma dimensão essencial da vida social e o primeiro nível da vida democrática e local de participação foi intuitivamente realizada pelos meios populares, em especial a partir da década de 40. As lutas políticas e sociais travadas desde então não marginalizaram os clubes. De tal forma isto foi assim durante esse período que o fascismo teve de criar mecanismos próprios para os controlar, quer impondo estatutos tipo, quer fazendo passar as listas das direcções pelos organismos que garantiam a defesa do Estado.
Naturalmente que esta situação se alterou substancialmente. Os obstáculos que os clubes encontram, no presente, referem-se a formas muito mais subtis de discriminação. Antes de tudo, a recusa dos «poderes» em reconhecer a sua importância social, cultural, económica e política; depois, a negação da existência de um «autêntico» estatuto do dirigente associativo voluntário capaz de facilitar e encorajar a sua intervenção naqueles domínios de forma muito mais eficaz. Finalmente, a permanente acusação de «subsídio-dependência» que lhes é feita quando pretendem obter meios suficientes para que essa intervenção se alargue ao maior número, numa perspectiva de autêntica democratização.
Contudo, apesar de todas as dificuldades o Movimento Associativo Popular continua a afirmar-se como um dos factores democratizadores essenciais para uma sociedade.