Uma greve que o Governo não pôde esconder

Os transportes pararam

A greve de anteontem, em importantes empresas de transportes de passageiros e nos CTT foi um sério aviso ao Governo e à politica de direita. Contra o congelamento dos salários, as ameaças de privatização e os bloqueios à contratação colectiva.

Ou o Governo recua, ou a luta continua

Perante os dados a confirmar a forte adesão a esta luta, a Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações, Fectrans/CGTP-IN, convocante da greve, congratulou-se com a resposta dos trabalhadores à política do Governo PS. A greve foi mais sentida nas horas de ponta, nas cidades, e paralisou a maior parte dos transportes colectivos rodoviários, ferroviários e fluviais de passageiros, por todo o País.
Perante o sucesso desta acção, a Federação sindical desafiou o Governo a ter em conta as justas reivindicações dos trabalhadores em luta, «abrindo processos de contratação colectiva, encetando um processo de negociações e pondo de lado a imposição unilateral das relações de trabalho e o congelamento dos salários», avisando que, «se assim não for, não restará outra alternativa à continuação da luta».
Praticamente nenhum comboio circulou, no dia de greve, tendo o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário, SNTSF/CGTP-IN, anunciado uma adesões a rondar os 95 por cento, a nível nacional, nas ferroviárias CP e CP-Carga, e superior a 95 por cento na Refer, afectando praticamente a totalidade da frota ferroviária nacional. Na CP-Carga, a greve começou segunda-feira, estando prevista nova paragem para amanhã.
Os trabalhadores da revisão ferroviária de Lisboa, Porto e Barreiro aderiram a cem por cento.
Em Lisboa, a CP teve mesmo de encerrar as estações de Cais do Sodré, Oeiras e Cascais, tendo a circulação parado, a partir das oito horas da manhã. No Porto, na estação de São Bento a maioria dos comboios foi suprimida, tendo-se registado acentuados atrasos nos que circularam.
Em Braga, a circulação de autocarros e de comboios esteve quase totalmente parada. De manhã não saiu nenhum autocarro da central de camionagem.

Poucos ou nenhuns transportes

Ao fim da manhã da greve, as frotas rodoviárias da Auto Viação do Minho, em Ponte de Lima, dos Transportes Urbanos de Braga e na Transvizela, pararam totalmente, com adesões totais.
Nos Transportes Sul do Tejo, na Rodoviária da Beira Litoral e na Moisés Correia de Oliveira, as adesões foram de 85 por cento.
Nas também rodoviárias Auto Viação do Cura, Rodoviária d'Entre Douro e Minho, Arriva, Minho Bus, Empresas de Transportes Rodoviários em Bragança, na Charline e na ETAC Cantanhede registou-se participações acima dos 80 por cento.
Menor adesão tiveram as greves na Carris, em Lisboa, e na STCP, no Porto, não tendo ido além dos 25 por cento, na Carris, embora o Sindicato Nacional dos Motoristas tenha acusado a administração de ter incorrido em irregularidades. No Porto, a adesão na STCP situou-se entre os 45 e os 50 por cento. Em Francos, no Porto, dos 204 autocarros previstos para sairem apenas laboraram 144, enquanto na estação Via Norte, em 184 viaturas saíram apenas 93.
Maior participação foi registada nos transportes rodoviários em Braga (80 por cento) e em Guimarães (85 por cento).
Nos transportes fluviais, a adesão foi de 91 por cento, na Transtejo, e de de 59 por cento na Soflusa. Nestas empresas a greve foi de três horas, no início de cada turno. Em cada uma delas apenas circulou um barco, em cumprimento de serviços mínimos, à semelhança do ocorrido na Atlantic Ferries.

Sem correio

Praticamente sem correio andou o País o dia inteiro, tendo a greve nos CTT sido um êxito, registando uma adesão nacional na ordem dos 81 por cento, anunciou o Sindicato dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações. Dos 5300 trabalhadores contabilizados pelo sindicato, 4293 cumpriram-na, revelou o SNTCT/CGTP-IN. Na tarde de anteontem, mais de mil trabalhadores dos Correios cumpriram uma concentração de protesto, diante do Ministério das Finanças e da administração da empresa, nos Restauradores, em Lisboa.
O SNTCT convocou a luta, iniciada na segunda-feira e que deve prolongar-se até 7 de Maio, contra a redução dos salários decorrente da diminuição dos horários de trabalho, que poderá provocar cortes na ordem dos 270 euros mensais. Esta luta não ocorre em simultâneo por todo o País, estando previstas paragens faseadas em cada centro de distribuição postal.
O sindicato anunciou adesões, segunda-feira, a cem por cento nos Correios de Grândola e de Pegões, enquanto na Nazaré, dos 12 carteiros do centro, só dois trabalharam. Em Lamego a participação foi de 50 por cento, e em Braga, de 79 por cento.
Na Madeira, a greve nos CTT registou uma adesão na ordem dos 80 por cento, anunciou o SNTCT.

Lei da greve violada

Um dia antes da greve, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário acusou as administrações da REFER e da CP de estarem «a violar a lei da greve», através da entrega de cartas a trabalhadores, individualmente, pressionando os trabalhadores a apresentar-se ao trabalho com o argumento do cumprimento de serviços mínimos, quando estes já estavam decretados e acordados com o SNTSF, em três acórdãos respeitantes àqueles serviços, que apenas decretaram, como tal, o transporte international Sud e Lusitânea.
O SNTSF avisou que «quem é responsável ou entregou cartas para assegurar o funcionamento de outros transportes, «está sujeito a processos-crime, nos termos da lei.
De madrugada, nas linhas de Sintra e de Cascais, apenas circulou um comboio, através do «recurso a trabalhadores com contratos precários da revisão», acusou o sindicato. Na linha ferroviária do Sado, a circulação só não foi totalmente suprimida, devido à «substituição de trabalhadores em greve por parte das chefias».
No Centro de Controlo Operacional de Lisboa, a participação chegou aos 90 por cento, tendo a operação sido executada «por pessoas que não pertencem àquele local de trabalho», acusou o SNTSF, salientando que a participação dos maquinistas foi na ordem dos 90 por cento, tendo estes iniciado a greve, um dia mais cedo. No primeiro dia de luta, os maquinistas pararam 80 por cento dos comboios de passageiros e todos os de mercadorias, segundo o Sindicato dos Maquinistas, que convocou esta luta.
Na Carris, o Sindicato Nacional dos Motoristas acusou a administração de pressionar os trabalhadores para continuarem de serviço, desrespeitando os períodos obrigatórios de descanso e impondo sobrecargas horárias que, segundo o sindicato, poderiam comprometer a segurança de pessoas e de bens.

Dimensão excepcional

Numa nota de solidariedade emitida no dia da luta, o PCP saudou a «dimensão excepcional» desta greve, e alertou para o facto de ela ter criado um «forte impacto, junto das populações, que o Governo não conseguiu esconder». «Em dezenas de piquetes de greve, por todo o País, o PCP esteve presente, expressando a sua solidariedade» com esta justa luta.


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