O colaborador

Henrique Custódio
Armando Vara prometeu e cumpriu: prometera «retomar a actividade profissional» no BCP e aí está ele, a partir dos primeiros dias de Janeiro deste ano de 2010, de regresso às instalações do «maior banco privado português» em Taguspark, no concelho de Oeiras. Retomar a actividade profissional fora afirmado por Vara como «um direito» que entendia «assistir-lhe» a partir do momento em que «caiu» parte da acusação que sobre ele impendia, no processo «Face Oculta». O Expresso, sempre aplicado a apurar os lances das tranquibérnias, explicava esta semana em que consistia a «acusação que caiu»: tratava-se de uma fotografia, supostamente tirada pela PJ ao sucateiro Manuel Godinho transportando um envelope antes do encontro com Vara, que afinal não constava dos autos e terá, por isso, levado o juiz de instrução criminal a considerar «não existirem indícios fortes» de que o arguido Vara recebera os tais 10 mil euros do empresário de Ovar.
Portanto, salvo pela fotografia que não compareceu no processo, Armando Vara retomou tranquilamente a sua «actividade profissional» no topo do BCP, onde foi colocado pela administração num «trabalho de consultoria» à própria administração, e a troco de uns generosos 30 mil euros mensais. Se considerarmos que o ordenado do Presidente da República anda pelos sete mil euros, a consultoria de Vara, pelos vistos, vale mais de quatro vezes que todo o trabalho do mais alto magistrado da Nação...
Com um pormenor: o suspenso vice-presidente do BCP e arguido num processo de corrupção em investigação foi colocado pelos seus ex-pares de administração a lidar «com empresas não-financeiras do grupo BCP», o que parece levantar um paradoxo: por um lado, a recondução de Vara ao seio da administração do BCP faz prova de que a mesma administração confia na sua idoneidade, sem precisar de ilibações em tribunal, por outro, a sua colocação em áreas não-financeiras sugere cautelas que dizem o contrário, em matéria de confiança. Em que ficamos?
Aparentemente, a distinta administração do BCP quis exibir a sua própria idoneidade e rigor ao recolocar Vara em «áreas não-financeiras», como quem diz – mas sem o afirmar, que isto é tudo gente fina – que o BCP não entrega a gestão de dinheiros a arguidos suspeitos de corrupção.
Pois não. Apenas lhe entrega a gestão do próprio banco, ao reintegrá-lo no círculo da administração.
É regra na administração – seja ela pública, privada, nacional ou estrangeira – que qualquer funcionário ou responsável suspeito em casos de corrupção, no exercício de funções, deve ser suspenso dessas funções até ao apuramento dos factos.
No BCP, se as suspeitas atingem membros da sua administração, não são os membros a ser suspensos, mas as suspeitas.
Deve ter sido esta «gestão criativa» que levou o BCP ao título de «maior banco privado português», embora tal grandeza tenha dado com os burrinhos na água através de sucessivos imbróglios financeiros criados pelas suas administrações, a começar nas do seu fundador, Jardim Gonçalves, e desembocando na intervenção estatal, via CGD, para salvar o banco do naufrágio, o que permitiria ao Governo de José Sócrates colocar amigos do peito, como Armando Vara, no topo das novas administrações.
As mesmas que, agora, transformaram o arguido Vara num colaborador a 30 mil euros/mês. E viva o Portugal do Sócrates!


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