Coisas da política única

José Casanova
Os efeitos do ataque à democracia de Abril, iniciado há trinta e três anos pelo Governo Mário Soares/PS, são visíveis todos os dias em todas as áreas da vida nacional.
Daquela que foi a mais avançada, a mais progressista, a mais participada, a mais justa – e, por isso, a mais moderna - democracia alguma vez existente em Portugal, pouco resta. Em seu lugar, aí está esta democracia de faz-de-conta, velha, injusta e em acentuado estado de degradação.
Com efeito, a destruição das grandes conquistas da Revolução de Abril, esvaziando a democracia de componentes básicas essenciais, abriu as portas à instalação de um regime de política única ao serviço dos interesses do grande capital, com todas as consequências daí resultantes.
Essa política única, que conduziu o País ao actual estado de degradação económica, social, política e cultural, é, ao mesmo tempo, matriz, estímulo e alimento de uma multiplicidade de fenómenos negativos de que são exemplo os casos e práticas de corrupção (com cada vez maior frequência envolvendo figuras destacadas dos partidos da política de direita) – e aos quais há que juntar outros mil pequenos casos, comprovativos, todos, de que a prática de tal política é incompatível com a seriedade, a ética, a transparência.
Veja-se o caso das recentes nomeações de governadores civis e do critério de compensação que a elas parece ter presidido: os candidatos do PS às câmaras de Gondomar, Espinho, Viseu e Alpiarça foram derrotados – pelo que, cumprir a vontade do eleitorado assumindo os lugares de vereadores, seria o caminho lógico a seguir. Não foi assim: como que em compensação pelas derrotas sofridas, foram nomeados governadores civis dos respectivos distritos – enquanto em Lisboa a nomeação para igual cargo compensou um candidato não eleito para a Assembleia da República.
Tudo isto feito com o desplante próprio de quem se julga dono disto tudo – de quem, quer quando está de turno ao Governo quer quando cumpre a tarefa de fingir de «oposição» - age de forma a fazer com que os portugueses pensem que estão condenados a suportá-los – mas não estão! - e que não há alternativa à sua política de direita – mas há!
Como o futuro nos vai mostrar.


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