Bases militares para quê e contra quem?

Pedro Campos
No dia 30 de Outubro os governos de Bogotá e Washington assinaram o acordo militar que permite ao império norte-americano instalar e operar sete bases militares em território colombiano: Málaga, Apíay, Cartagena, Larandia, Tolemaida, Malambo e Palanquero. A «justificação» inicial para esta nova tentativa de Washington de exercer um férreo controlo sobre o seu quintal das traseiras foi a do combate contra o narcotráfico e a insurgência guerrilheira colombiana, que leva mais de cinquenta anos de luta armada contra a oligarquia do país, uma das mais rançosas de todo o subcontinente.
Os regimes do narcotraficante Álvaro Uribe e o do falsário Obama multiplicaram-se em declarações nesse sentido. Segundo eles, os demais países da América Latina nada deviam temer em relação com essas bases militares, por certo instaladas na Colômbia de forma anticonstitucional, como bem advertiu há pouco Ernesto Samper, ex-presidente colombiano.
Vários meses antes e como reacção imediata à iminência desta jogada destinada a transformar a Colômbia no Israel da região, os países de UnaSur manifestaram, se bem que em diferentes registos, a sua preocupação com esta militarização do continente. Nem sequer o peruano Alan Garcia, sempre tão bem comportado com Washington, se calou na reunião de Bariloche, Argentina, onde o tema foi tratado ao mais alto nível. Por outro lado, Lula, que frequentemente faz justiça à sua fama de «moderado», acaba de pedir a Obama que mande as bases para outro lado... sem especificar qual!
Será que, além dos presidentes latino-americanos do «eixo do mal»: Chávez, Correa e Evo, também nenhum dos outros, onde os há de vários tons, acreditam nas boas intenções dos seus pares de Bogotá e Washington? Pois parece que não, e têm toda a razão para que assim seja.

Força Aérea dos EUA põe tudo em pratos limpos

Um documento do Departamento da Força Aérea, redigido em Maio de 2009, sobre o orçamento para 2010 diz, preto no branco, para que servirão as tais bases. Para justificar junto do senado ianque o gasto de 46 milhões numa só base, a de Palanquero, afirma que a mesma oferece «uma oportunidade única para as operações do espectro completo numa subregião do nosso hemisfério, onde a segurança e a estabilidade estão sob a ameaça constante das insurgências terroristas...». Como se pode apreciar, esta retórica já tem pouco a ver com o combate à droga e à guerrilha e revela os verdadeiros objectivos das bases. Contudo, para que os senhores senadores possam medir bem o alcance da missão das mesmas, o documento, que provavelmente já foi reforçado por outros semelhares das forças militares terrestres e navais, afirma que elas terão a função de combater a «ameaça constante (...) dos governos anti-estadunidenses», além de outras mais politicamente correctas como «a pobreza endémica» (em grande parte, resultado da exploração imperialistas dos povos ao Sul do Rio Grande) e os «frequentes desastres naturais»....!
Segundo quem realmente governa nos Estados Unidos, o completo militar-industrial, já sabemos o que o Comando do Sul quer que façam os seus aviões Awacs, C-17 e Orion P-3 desde Palanquero. Cada qual cumprirá a sua missão. Os primeiros, de inteligência; os segundos, de transportes; e os terceiros, de espionagem electrónica. Desde Palanquero, o «bonzinho» do Obama e quem sobre ele governa poderão controlar toda a região até ao Sul, à excepção de Cabo de Hornos. Sabendo qual é a missão de Palanquero, ficará ainda alguma dúvida para que serão usadas as outras bases militares? Ficará sem resposta para quê se reactivou a IV Frota das Caraíbas, desactivada desde o final da II Guerra, e as bases de Curaçao e Aruba?
Estas duas ilhas, restos do império holandês, ficam mesmo em frente das costas venezuelanas, o que torna o governo de Hugo Chávez no principal «para quê» desta nova agressão norte-americana contra a América Latina. O Equador de Rafael Correa, que tem fronteira com a Colômbia, está na mesma lista, tal como a Bolívia desse indígena «atrevido» que responde ao nome de Evo Morales e se atreve a desafiar a oligarquia local e a defender as grandes maiorias do seu país. Estes são os primeiros de uma lista que, se for necessário, pode incluir muitos mais governos... incluindo até o de Brasília, que Lula só é «moderado» para mais facilmente diabolizar os outros três!


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