Bizarrias

José Casanova
Na última edição do semanário Sol, pode ler-se um texto bizarro, no qual se tecem bizarras considerações sobre a situação nas Honduras e se procede a uma bizarra comparação entre as situações de Manuel Zelaya e Hamid Karzai - o primeiro, presidente das Honduras, eleito democraticamente e deposto por um golpe militar fascizante; o segundo, «eleito» presidente do Afeganistão por obra e graça de uma monumental fraude eleitoral.
As semelhanças entre um e outro, descobre-as e aponta-as o autor do bizarro texto, Nuno Escobar de Lima (NEL), começando por assinalar que «os dois homens mantêm os cargos mas não o poder».
Ora, se é verdade que Karzai mantém o cargo e o poder correspondentes a uma «presidência» fraudulentamente obtida, nas Honduras quem, de facto, mantém o cargo e o poder, obtidos através de um golpe anticonstitucional, é Micheletti.
Num caso e noutro, é certo, por efeito de golpaças en­co­men­dadas, às claras ou encapotadamente, pelo Governo de Obama – e essa é, na verdade, uma semelhança assinalável… só que entre Karzai e Micheletti…
Sobre o golpe das Honduras, NEL justifica-o e brinda-o, até, com um elogio implícito, ao repetir as patranhas de Micheletti – e é claro que sobre a repressão, as prisões, os assassinatos, os média encerrados, nem uma palavra…
A queda de NEL para as comparações precipita-o, depois, para uma equiparação entre Micheletti – o golpista; e Abdulah – o que desistiu das eleições fraudulentas – e chega à bizarra conclusão de que «os dois acabam o ano afastados das cadeiras do poder, mas com uma influência reforçada tanto entre os próprios eleitores como na comunidade internacional»…
NEL brinda-nos, ainda, com algumas novidades, género: «o líder interino («o líder interino» é Micheletti…) anunciou a formação de um Governo de unidade, com Zelaya à cabeça»…
NEL termina as suas bizarrias garantindo que o golpista «Micheletti será recordado como o homem que evitou a alteração da Constituição e conseguiu que a comunidade internacional não se afastasse mais de um país dependente da ajuda externa», enquanto Ze­laya será re­cor­dado como o homem que não res­peitou a de­mo­cracia...
Que o mesmo é dizer: viva o golpe!


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