A gaveta e o assobio

Leandro Martins
Numa semana em que todos os jornais falam nas desavenças internas que coroaram a aprovação das listas do PSD – ou seja, as listas a gosto de Manuela Ferreira Leite, que é quem manda nesse partido da alternância – e que mostram bem o tipo de «democracia» que por lá reina e que afasta todos os que divergem da amada líder, uma outra intervenção acabou por ficar abafada no tropel de palavras e de personalidades em luta por um lugar nas cadeiras do poder.
Tal intervenção, que concorre também para acertar agulhas na corrida ao mesmo poder, visando manter a mesma política com outra marca, a do PS, é no entanto bastante significativa. Referimo-nos ao artigo publicado anteontem por Mário Soares no Diário de Notícias, onde os seus comentários e conselhos aos amigos têm lugar cativo. Intitulado O programa do PS e o futuro, o artigo é não só revelador da forma como a burguesia intervém na política, como, sobretudo, é típico da postura do seu autor, sempre preparado para adaptar a realidade das coisas aos interesses políticos e económicos que defende, mesmo que seja necessário dar o dito por não dito.
Por nossa parte, que não temos a memória curta, recordamos a frase de Soares, nos tempos em que declarava que era necessário «meter o socialismo na gaveta». «Só os burros não mudam de opinião». É uma bela frase, que tem servido de muleta a todos quantos, mostrando-se durante algum tempo de esquerda, decidem enveredar pelos caminhos fáceis da política de direita, que presta serviços ao capital e rende algum na vidinha.
Soares (versão2009), congratulando-se embora com o facto de o programa PS estar «voltado para o futuro», avisa que o facto de lhe encontrar uma certa postura de «defesa» quanto à governação de Sócrates nos últimos quatro anos é «uma ideia bastante polémica». «Não é o momento de discutir o passado», declara, mostrando como, para ele, é prejudicial prestar contas aos eleitores. «Isso representa deslocar o debate para o passado, no pior momento.» Que momento seria mais apropriado, quando se trata de julgar as malfeitorias de um tal Governo?, perguntamos nós. E, mais adiante, contraditoriamente (mas não faz mal, porque Soares acha que pode dizer o que quiser), volta ao passado ainda mais distante para fazer o elogio do PS quando a este ainda restava alguma esquerda nas ideias e em alguns actos. «Em Portugal, o PS bateu-se sempre pelo reforço da Segurança Social, pela luta contra a pobreza, pelo Serviço Nacional de Saúde.» Embora estas afirmações só em parte sejam aceitáveis num par de anos, sobram mais de três décadas em que vimos o PS empenhado na destruição de
Mas a questão é «mobilizar o eleitorado»: «Ignorando as polémicas e o que se fez ou errou no passado.»
Como quem diz: metam isso tudo na gaveta, que ainda cabe lá mais. E assobiem para o lado. Esquerdo.


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