A escolha

Henrique Custódio
Há dias, o Presidente da República Aníbal Cavaco Silva proferiu uma afirmação de peso.
Disse ele: «Não consigo imaginar algo mais importante para os superiores interesses de Portugal do que a escolha de um português para presidente da Comissão Europeia».
Comecemos por anotar que o Presidente da República «não consegue imaginar», no actual momento de crise profunda que o País atravessa, com mais de meio milhão de desempregados, o sistema produtivo desarticulado e a economia em recessão, algo mais importante para «os superiores interesses de Portugal» que «meter um português» na presidência da Comissão Europeia.
Provavelmente, o que aqui falta em imaginação só tem paralelo com o que também falha em sentido de Estado.
Primeiro, não se percebe que importância terá, seja para que país for da União, a escolha de um seu autóctone para presidente da Comissão Europeia quando, por definição e compromisso expresso, o titular deste cargo está obrigado a uma estrita independência em todos os domínios de intervenção, a começar pelo das nacionalidades e nações.
Acresce que, ao colocar a escolha para a presidência europeia de um patrício e correligionário ao nível dos «superiores interesses» da pátria, o Presidente da República parece ver a presidência europeia como um negócio de amigos e o «interesse nacional» como um produto de mercado.
Finalmente, fica a ideia de que, para o actual PR, o ser português é qualidade necessária e suficiente para definir um patriota e segregar os aplausos da nação. Esquece que Salazar também era português, tal como Silva Pais ou os seus torcionários da PIDE, para falarmos de exemplos «superiores».
Ora quem é este português que o PR não hesita em equiparar a um «superior interesse de Portugal»?
É Durão Barroso, o correligionário de Cavaco Silva que usou o cargo de primeiro-ministro português para transformar o território nacional no palco da «Cimeira da Vergonha», onde foi engendrada a Guerra do Iraque.
O mesmo Durão Barroso que serviu, pessoalmente, nos Açores de mordomo ao Trio da Guerra – Bush, Blair e Aznar -, contentando-se com um lugar nas «fotos de família», onde se encarrapitava exundando felicidade.
O Durão Barroso que foi devidamente compensado por esta «disponibilidade» açoriana com um convite para a presidência da Comissão Europeia, penacho que aceitou tão gulosa como rapidamente, tal era a vontade de fugir ao ajuste de contas eleitoral que se acastelava no horizonte, como corolário da sua desastrosa governação.
Compreende-se que nada disto impressione o Presidente da República, um veterano e pioneiro nesta manobra da fuga às responsabilidades governativas.
Por isso também se compreende – embora seja inadmissível – que Cavaco Silva, agora como Chefe de Estado, não consiga imaginar «algo mais importante» para os «superiores interesses de Portugal» que a recandidatura de Durão Barroso à presidência da Comissão Europeia.
Já não se percebe onde é que tal currículo de Durão Barroso motiva o PS de Sócrates a apoiar, igualmente, a sua recandidatura à dita presidência.
Só se for em paga pelo «desastre Santana Lopes», que a fuga de Barroso propiciou e tão determinante se tornou para a maioria absoluta do PS.
A tal com que o Governo Sócrates bateu a própria política reaccionária de Durão Barroso, ultrapassando-a - pela direita, e largamente.


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