Vale tudo?

João Frazão
Perdoem-me os leitores que volte ainda às eleições para o Parlamento Europeu, mas sucede que, no PCP, temos o hábito de discutir de forma ampla e democrática todos os processos e, no quadro dessa discussão, aparecem preciosidades que não poderíamos deixar de assinalar.
Para que não fiquem dúvidas, desde já se assinala que somos pela construção dos equipamentos, que eles sejam postos em funcionamento quando estão prontos, que achamos que não vem mal nenhum ao mundo que se inaugurem, promovendo o contacto das populações com aquilo que vão utilizar.
A história passa-se no distrito de Bragança e envolve uma ministra, um equipamento público e uma inauguração.
A ministra da Saúde que, como todos se lembram, veio substituir o truculento Correia de Campos, quando as populações se levantaram contra a opção de encerramentos de serviços de saúde um pouco por todo o lado, a ministra que vinha imprimir um novo estilo para explicar as políticas às pessoas, (sim, que esta história de mudar de estilo, para garantir que se mantém o essencial das políticas, já não é nova neste Governo), foi há dias a Bragança inaugurar as instalações de um novo Centro de Saúde.
À primeira vista é positivo, pois de desinvestimento e abandono está o interior farto.
As dúvidas aparecem quando se pergunta há quanto tempo estava pronto, em que enquadramento foi a inauguração e o que aconteceu depois dela.
As respostas são simples e esclarecedoras. Estava pronto há vários meses, a aguardar simplesmente o acto inaugural.
Foi inaugurado em plena campanha eleitoral, a apenas meia dúzia de dias das eleições para o Parlamento Europeu, com pompa e circunstância, embora, evidentemente, sem qualquer ligação com elas.
Depois da inauguração, novinho em folha e a brilhar, com equipamentos adequados e esterilizados, tudo pronto a funcionar, desligadas as luzes da festa e quando já desapareceram os barulhos dos foguetes, o novo Centro de Saúde de Bragança voltou a fechar e fechado permanece até hoje.
Afinal, a ministra de aspecto angelical e falinhas mansas, quando tocou a utilizar o aparelho de Estado para arregimentar votos, associou-se à distribuição de cheques e promessas, no velho estilo do vale tudo!
Não espantam por isso as suas declarações ao Cor­reio da Manhã, de que ninguém lhe deu orientação para mudar de estilo. È que, neste caso, o novo estilo já vinha de série.


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