Legitimidades

Henrique Custódio
«Não é legítimo que as lutas sindicais sejam instrumentalizadas em favor de interesses partidários», proclamou José Sócrates num comício eleitoral do PS a Norte, comentando, apenas duas horas depois, a terceira descomunal manifestação de professores realizada em Lisboa, com 85 mil manifestantes que até a polícia – de novo autorizada pelo MAI a pronunciar-se – se viu forçada a «reduzir» para uns gigantescos 55 mil.
O acalorado primeiro-ministro (que, literalmente, suava as estopinhas durante a alocução) visava atingir os representantes dos partidos que, à excepção do PS, fizeram questão de marcar presença solidária nesta manifestação.
Esqueceu-se que ele próprio e o seu PS, exactamente há um mês atrás, enviaram o seu cabeça-de-lista europeu, Vital Moreira, à manifestação do 1.º de Maio da CGTP-IN, em Lisboa, com tão deliberada intenção de «instrumentalizar» aquela luta sindical a favor do «interesse partidário» do PS, que o inenarrável Vital confessaria, com canhestro entusiasmo após ser alvo de alguns apupos e borrifos de água, que «tal como Mário Soares, tive aqui a minha Marinha Grande».
Esta sequência, algo grotesca, retrata razoavelmente José Sócrates.
Evidencia, por exemplo, que para este homem não há circunstâncias que exijam argumentos – os argumentos é que são, todos, de circunstância. Daí conseguir, com o mesmo à-vontade, criticar hoje, nos outros, o que há um mês atrás ele próprio praticou.
Também mostra que, para José Sócrates, o que conta são as aparências.
No episódio de Vital Moreira, o que importava era dar a uma visita provocatória a aparência de uma inocente «cortesia democrática», enquanto na manifestação dos professores, o que se impunha era dar à solidariedade unânime das oposições a aparência de uma «ilegitimidade». Se para os dois objectivos foi necessário praticar, no primeiro, o acto que se vituperou no segundo – a «instrumentalização» das lutas sindicais – isso não importa porque, na filosofia deste Sócrates, o que interessa não é a verdade, mas a aparência dela.
Daí que toda a sua governação seja um acervo de representações falaciosas, onde a desregulamentação, precariedade e extinção de carreiras na Função Pública foram apresentadas como a «racionalização dos recursos humanos» no Estado, a destruição das convenções dos subsistemas de Saúde (nos jornalistas, bancários, polícias, Forças Armadas, etc.) foi justificada com a necessidade de «nivelar» (mas por baixo) a assistência médica pública, o encerramento de maternidades e centros de Saúde foi explicado como uma «melhoria do atendimento médico-hospitalar», a extinção de milhares de escolas primárias foi decidida como «modernização do parque escolar», a desarticulação da gestão democrática das escolas, o amesquinhamento da carreira docente, a burocratização alucinada da avaliação de professores e a degradação pedagógica nas escolas foi apresentada como «a revolução do Ensino».
Para manter oleado e a funcionar este constante jogo de aparências, o primeiro-ministro José Sócrates montou, desde o início do seu Governo, uma máquina de propaganda custando insondáveis milhões de euros para alimentar a miríade de empresas de comunicação, de gabinetes de estudo, de assessorias, de consultores e consultadorias visando permanentemente o objectivo de construir a «boa imagem» das políticas governamentais.
Em tudo isto é que José Sócrates devia exercitar a inquirição das suas «legitimidades».


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