Salários em atraso na construtora João Salvador

Há fome em Tomar

Devido a dívidas da Câmara Municipal de Tomar (PSD) à construtora João Sal­vador, cerca de 300 operários não recebem salários desde Janeiro. Com a fome a tornar-se indisfarçável, cumpriram uma greve espontânea e foram pedir contas à autarquia.

«Du­rante a se­mana comem apenas um prato de sopa»

Com o subsídio de Natal e os salários de Janeiro, Fevereiro, e agora de Março por receber, cuja média é de 539 euros de salário-base, «os trabalhadores estão numa situação social muito crítica». «Muitos estão a ser empurrados para um limiar de pobreza que os fez entender a necessidade de lutar pelos empregos, os salários, e exigir do Governo a viabilidade desta empresa», explicou ao Avante!, o dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção, Madeiras, Mármores e Cortiças do Sul, Aquilino Coelho.
«A situação apertou e, no dia 26 de Março, os motoristas da empresa empreenderam uma greve espontânea, com concentração diante das instalações, em Santa Cita, Asseiceira, que teve a adesão da quase totalidade dos trabalhadores», explicou o dirigente sindical.
Ao inteirarem-se da situação, representantes sindicais deslocaram-se à empresa e ajudaram a esclarecer os trabalhadores sobre a importância de se sindicalizarem. Ajudaram a constituir uma delegação ad-hoc, composta por operários.
Um receio expresso pelos trabalhadores, que continuam a cumprir escrupulosa e diariamente com as suas obrigações laborais, prende-se com notícias saídas em jornais da região, impossíveis de confirmar até ao momento pelo sindicato, que revelavam a deslocação de materiais da João Sal­vador para uma outra empresa, criada pela mesma administração, mas em Angola.
Para ontem, estava marcada nova reunião, onde os representantes sindicais iam confrontar a administração com essas notícias. Depois desse encontro, os trabalhadores, em plenário, amanhã, decidirão as medidas a adoptar, não estando posta de parte a adopção de novas formas de luta. Para dia 7, os operários marcaram outro plenário onde participará o secretário-geral da CGTP-IN, Manuel Carvalho da Silva.
A João Sal­vador garante cerca de 300 postos de trabalho, com forte peso no tecido social da região. As autarquias que têm servido foram acumulando dívidas à empresa, «e agora, quem paga amargamente por isso, são os trabalhadores», salientou o dirigente sindical.

Vale sempre a pena lutar

No início da tarde do dia da luta, a administração recebeu a delegação sindical, a quem foi confirmado pelo mais antigo sócio da empresa, que dá o nome à construtora, que as dificuldades na João Sal­vador decorrem de dívidas de autarquias a uma empresa onde a quase totalidade do trabalho são empreitadas municipais.
Nesse encontro, graças à pressão da luta que havia de chegar aos Paços do Concelho, a administração comprometeu-se a pagar os salários de Janeiro, na segunda-feira passada. Até anteontem de manhã aquele compromisso não estava totalmente cumprido, «mas foi já um sinal claro de que vale sempre a pena lutar», considerou Aquilino Coelho.
Quando o Avante! abandonava a porta das instalações da empresa, anteontem, um operário veio avisar os representantes sindicais que aos trabalhadores com conta na Caixa Agrí­cola de Tomar, foi negado o levantamento dos salários de Janeiro.
Depois da reunião com o administrador, no dia 24, os trabalhadores deliberaram, em plenário, dirigir-se à Câmara Municipal. Mais de 70 operários concentraram-se diante do Município, e a delegação foi recebida pelo presidente da Câmara.
Segundo o edil, a Câmara candidatou-se ao programa do Governo «Pagar a horas», que tem fundos para cobrir dívidas a fornecedores e empreiteiros, o empréstimo tinha sido aceite, foi posteriormente aprovado na Assembleia Municipal e aguardava por um parecer do Tribunal de Contas.

Tra­ba­lhar com fome

«Esperamos que nesse encontro nos forneçam os dados reais da situação da empresa, e sejam desbloqueadas verbas para que a situação não se arraste por mais tempo», afirmou Aquilino Coelho, recordando haver «trabalhadores com fome, dívidas de empréstimos à banca e quem não pague a renda de casa há cerca de quatro meses». «No dia da luta, houve trabalhadores a dizer-nos que durante a semana comem apenas um prato de sopa, e ao fim-de-semana vão-lhes valendo os familiares», alertou, indignado, o dirigente sindical.

Sempre com quem tra­balha

Perante a gravidade da situação vivida por estes operários, o Grupo Parlamentar do PCP apresentou, anteontem, um requerimento, na Assembleia da República para pedir esclarecimentos do Governo sobre a situação na empresa, apurar responsabilidades e desafiar a maioria PS a adoptar medidas concretas que viabilizem a João Sal­vador e salvaguardem os postos de trabalho.
Também a Comissão Concelhia de Torres Novas do PCP emitiu um comunicado, no mesmo dia, manifestando a solidariedade com os trabalhadores da empresa, e aproveitando para denunciar que também a Câmara de Torres Novas deve à mesma construtora «mais de 300 mil euros que ajudariam a pagar muitos salários». A Concelhia do PCP acusou a autarquia PS de fazer os trabalhadores «suportar o endividamento da Câmara e o luxo das obras realizadas».
Segundo Jorge Ferreira, membro da Direcção da Organização Regional de Santarém do PCP, desde a crise provocada no Tramagal, com o fim da Me­ta­lúr­gica Du­arte Fer­reira – cujos trabalhadores ainda aguardam pelo pagamento das indemnizações – e, mais recentemente, da Cer­tomar, que não se assistia na região a uma situação tão grave como esta. «Há trabalhadores que só vão para casa bem tarde, segundo nos disseram, para evitarem ouvir as crianças a pedir coisas que não podem satisfazer», recordou.


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