Obama: retirada da retirada?

Rui Paz

O imperialismo mantém todas as opções para conter a revolta e a resistência dos povos

Obama tinha prometido durante a campanha eleitoral que os Estados Unidos iriam retirar rapidamente o seu exército de ocupação do Iraque. Esta promessa foi uma das que mais contribuiu para a onda de entusiasmo criada em torno daquela candidatura. Recentemente o presidente norte-americano informou que pelo menos 30 mil soldados irão continuar a ocupar o Iraque, mesmo depois da «retirada» oficial. Numa declaração feita na base militar de Camp Lejeune na Carolina do Norte, declarou que até 2010 seriam retiradas as unidades que designou por «tropas de combate». Também George Bush proclamara em tempos que a guerra no Iraque tinha terminado. E depois foi o que se viu. Segundo o antigo ministro da Defesa de Bush que transitou para o Gabinete de Obama, R. Gates, devem ficar no país 35 a 50 mil soldados. Gates não lhes chama exército de ocupação mas força de «formação militar» do exército iraquiano e diz «tratar-se de uma missão muito diferente» (CNN). Isto significa que os Estados Unidos não têm a intenção de respeitar a soberania do Iraque e que só abandonarão definitivamente o Tigre e o Eufrates se conseguirem estabelecer ali um regime favorável aos seus interesses petrolíferos e geoestratégicos. Um Iraque livre da ocupação e governado pelos iraquianos e para os iraquianos não é o objectivo de Washington.

Também no Afeganistão, face à crescente resistência contra as tropas militares estrangeiras, o Pentágono está a preparar a transferência de 17 mil soldados do Iraque para o Indukuch e a tentar arrastar os aliados dos EUA para uma participação maior na guerra. Já era esse o desejo do Gabinete de George Bush quando Rice procurava convencer os principais estados da NATO a derramar mais sangue no Afeganistão. Os primeiros meses de 2009 foram o início de mais um ano sangrento no Afeganistão com numerosos civis mortos pelas tropas da NATO e em particular por militares dos EUA. A situação é tal que o Pentágono, na sua ânsia de tentar enfraquecer a resistência que tem designado propagandística e exclusivamente por «talibãs», já começa a falar de «bons» e «maus» talibãs. Os «bons» ou «moderados» seriam aqueles que estariam dispostos a negociar a permanência do domínio norte-americano na região. Os «maus» seriam os que não aceitam participar num regime favorável à manutenção dos interesses dos Estados Unidos. Convém lembrar que esta táctica já foi seguida por Clinton na Jugoslávia em relação ao UCK que passou várias vezes de organização «terrorista» a «movimento de libertação» consoante a estratégia de Washington.

O Tribunal Internacional em Haia lançou um mandato de captura contra um chefe de Estado em exercício de um país, o Sudão, que nunca agrediu outros estados mas, como se sabe, não dá prioridade aos interesses geoestratégicos e petrolíferos da superpotência norte-americana. Mas George Bush, que fabricou uma tempestade de mentiras e rasgou princípios fundamentais do Direito Internacional ao agredir o Iraque, provocando a morte e o caos para milhões de iraquianos, continua em liberdade. Os crimes da CIA não são investigados nem nos Estados Unidos nem nas instâncias internacionais.

Também Israel continua a fazer o que quer com a sua política de roubo dos territórios palestinianos e de negação dos direitos do povo da Palestina ao seu Estado livre e soberano. Os responsáveis pelas agressões contra a Palestina, o Líbano e a Jugoslávia ficam impunes. Entretanto o exército americano executa manobras militares com a Coreia do Sul ameaçando todo o Extremo Oriente. Para quem estiver atento, longe de abrandar, o imperialismo mantém todas as opções para conter a revolta e a resistência dos povos, nomeadamente a da guerra, como resposta à crise que tende a agravar-se mais rapidamente do que os dirigentes do mundo capitalista imaginavam.


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