Irão ou não Irão?
Os que viam (ou queriam ver) grandes diferenças entre Bush II e Barack Obama devem começar a deitar contas à vida e a assumir as realidades, que nem sempre coincidem com os desejos. Para Bush II era nítido que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça (ADM) e por essa razão era necessário invadir o Iraque e salvar o mundo dessa ameaça. Blair e Aznar também não tinham dúvidas de nada. O mesmo sucedeu com outros governos europeus e Portugal teve o muito duvidoso privilégio de que tivesse partido dos Açores o acordo – realmente a decisão foi tomada muito antes – de invadir (outra vez) o Iraque.
Os resultados são já sobejamente conhecidos. As tais ADM nunca apareceram – o Iraque era um país profundamente debilitado por vários anos de bloqueio orquestrado por Washington e estava muito longe de ser um perigo – e os delinquentes da política internacional justificaram as várias centenas de milhares de mortos iraquianos e a destruição quase total da infraestrutura do país com a desculpa, a nova desculpa, de que tudo fora com a sublime intenção de levar a democracia a esse país do Médio Oriente (na Arábia Saudita a democracia floresce até nas areias do deserto!).
Do petróleo, a verdadeira razão da guerra, não falaram nunca até porque a verdade estava à vista de todos. Tudo se passou como se «os salvadores do mundo ocidental» fossem capazes de tomar a mesma decisão de terrorismo de Estado se o Iraque em vez de petróleo aos pontapés tivesse tulipas no meio das suas areias escaldantes!
Agora é o Irão e as alegadas armas nucleares. E começam a subir de tom as declarações, com as aparentes contradições, estrategicamente controladas, de que há armas nucleares e de que não há armas nucleares. Curiosamente, elas aparecem poucos dias depois de russos e iranianos porem em funcionamento, de modo experimental, a primeira fábrica nuclear, localizada por certo numa cidade que se chama Bush...erhr! Contudo, não se pense que se trata de uma instalação nuclear que corresponda a um projecto recente. Os primeiros trabalhos datam de há 34 anos, quando o Irão não fazia parte do eixo do mal. Era, pelo contrário, um país bem comportado e quem iniciou a construção foi uma empresa alemã... em plena era do Xá!
Mudam-se os tempos...
O almirante Mike Mullen, chefe do Estado-Maior conjunto dos Estados Unidos, há menos de um ano – quando Bush II já tinha perdido todo o crédito internacional debitado pelos seus pares – mostrava-se partidário do diálogo com Teerão e defendia acções exclusivamente não-militares. Agora parece estar a mudar o tom da conversa. Em declarações recentes à CNN afirmou que « francamente sim, pensamos» que o Irão tem material suficiente para fabricar uma bomba atómica. E foi mais longe dizendo que há muito pensa «que o Irão tenha armas nucleares» e que tal é «um panorama mau, muito mau para a região e o mundo».
Quem lançou a primeira (e única) agressão atómica da história – não uma mas duas vezes – acha que só ele e os seus Estados clientes – incluindo o Estado genocida e teocrático de Israel – têm direito a esse poder! Não há dúvida de que o imperialismo, sem importar a cor de quem manda, mantém sempre a sua natureza agressiva.
Contudo, menos de 24 horas depois, aparece outra figura graúda do império a dizer o contrário. Robert Gate, secretário da Defesa do governo de Obama, diz que não. Que o Irão «não está perto de ter uma arma neste momento». A declaração é feita a uma televisão da concorrência, a NBC. Um puxa para um lado, o outro (aparentemente) para o outro, mas finalmente empurram ambos a mesma direcção. É o comportamento típico do império. Ali não há contradições reais e se as houver... o quê? Vejamos.
Quando o Xá mandava e fazia as piores tropelias com o apoio de Washington, o secretário de Estado era Henry Kissinger. O autor intelectual do golpe de Estado contra Salvador Allende mantinha então que a «introdução de energia nuclear» era importante para cobrir «as crescentes necessidades da economia iraniana», e explicava que essa opção libertava «as restantes reservas de petróleo para a exportação ou transformação em produtos petroquímicos». Bem pensado, poderia dizer-se. Mas... mudam-se os tempos, mudam-se as verdades. Hoje «para um produtor petrolífero como o Irão, a energia nuclear constitui um desperdício de recursos». Quem o diz? Kissinger! Há nisto alguma contradição? O mesmo Kissinger responde. Antes o Irão «era um país aliado (...) de modo que, em consequência, tinha uma genuína necessidade de energia nuclear».
Está tudo dito, não está?
Os resultados são já sobejamente conhecidos. As tais ADM nunca apareceram – o Iraque era um país profundamente debilitado por vários anos de bloqueio orquestrado por Washington e estava muito longe de ser um perigo – e os delinquentes da política internacional justificaram as várias centenas de milhares de mortos iraquianos e a destruição quase total da infraestrutura do país com a desculpa, a nova desculpa, de que tudo fora com a sublime intenção de levar a democracia a esse país do Médio Oriente (na Arábia Saudita a democracia floresce até nas areias do deserto!).
Do petróleo, a verdadeira razão da guerra, não falaram nunca até porque a verdade estava à vista de todos. Tudo se passou como se «os salvadores do mundo ocidental» fossem capazes de tomar a mesma decisão de terrorismo de Estado se o Iraque em vez de petróleo aos pontapés tivesse tulipas no meio das suas areias escaldantes!
Agora é o Irão e as alegadas armas nucleares. E começam a subir de tom as declarações, com as aparentes contradições, estrategicamente controladas, de que há armas nucleares e de que não há armas nucleares. Curiosamente, elas aparecem poucos dias depois de russos e iranianos porem em funcionamento, de modo experimental, a primeira fábrica nuclear, localizada por certo numa cidade que se chama Bush...erhr! Contudo, não se pense que se trata de uma instalação nuclear que corresponda a um projecto recente. Os primeiros trabalhos datam de há 34 anos, quando o Irão não fazia parte do eixo do mal. Era, pelo contrário, um país bem comportado e quem iniciou a construção foi uma empresa alemã... em plena era do Xá!
Mudam-se os tempos...
O almirante Mike Mullen, chefe do Estado-Maior conjunto dos Estados Unidos, há menos de um ano – quando Bush II já tinha perdido todo o crédito internacional debitado pelos seus pares – mostrava-se partidário do diálogo com Teerão e defendia acções exclusivamente não-militares. Agora parece estar a mudar o tom da conversa. Em declarações recentes à CNN afirmou que « francamente sim, pensamos» que o Irão tem material suficiente para fabricar uma bomba atómica. E foi mais longe dizendo que há muito pensa «que o Irão tenha armas nucleares» e que tal é «um panorama mau, muito mau para a região e o mundo».
Quem lançou a primeira (e única) agressão atómica da história – não uma mas duas vezes – acha que só ele e os seus Estados clientes – incluindo o Estado genocida e teocrático de Israel – têm direito a esse poder! Não há dúvida de que o imperialismo, sem importar a cor de quem manda, mantém sempre a sua natureza agressiva.
Contudo, menos de 24 horas depois, aparece outra figura graúda do império a dizer o contrário. Robert Gate, secretário da Defesa do governo de Obama, diz que não. Que o Irão «não está perto de ter uma arma neste momento». A declaração é feita a uma televisão da concorrência, a NBC. Um puxa para um lado, o outro (aparentemente) para o outro, mas finalmente empurram ambos a mesma direcção. É o comportamento típico do império. Ali não há contradições reais e se as houver... o quê? Vejamos.
Quando o Xá mandava e fazia as piores tropelias com o apoio de Washington, o secretário de Estado era Henry Kissinger. O autor intelectual do golpe de Estado contra Salvador Allende mantinha então que a «introdução de energia nuclear» era importante para cobrir «as crescentes necessidades da economia iraniana», e explicava que essa opção libertava «as restantes reservas de petróleo para a exportação ou transformação em produtos petroquímicos». Bem pensado, poderia dizer-se. Mas... mudam-se os tempos, mudam-se as verdades. Hoje «para um produtor petrolífero como o Irão, a energia nuclear constitui um desperdício de recursos». Quem o diz? Kissinger! Há nisto alguma contradição? O mesmo Kissinger responde. Antes o Irão «era um país aliado (...) de modo que, em consequência, tinha uma genuína necessidade de energia nuclear».
Está tudo dito, não está?