Abóboras
A derrocada revela-se cada dia pior do que os mais negros cenários
Faz um certo efeito ler as declarações recentes de Alan Greenspan, que ocupou o mais influente cargo financeiro dos EUA (Presidente da Reserva Federal) entre 1987 e 2006. Dois meses após a sua nomeação por Ronald Reagan, as bolsas mundiais sofreram uma derrocada histórica. Num único dia (19 de Outubro, 1987) a bolsa de Nova Iorque caiu 22,7%, a maior queda diária até hoje. Durante duas décadas Greenspan tudo fez para evitar a (inevitável) explosão de crise do sistema capitalista, mantendo-o em ilusória boa saúde através de sucessivas «bolhas» especulativas e injecções de crédito artificial. Auxiliado inicialmente pelas colossais somas de dinheiro resultantes das pilhagens da contra-revolução no Leste da Europa, Greenspan presidiu depois à bolha da «nova economia» tecnológica, à bolha bolsista, à mais recente bolha do sector imobiliário. Cada bolha especulativa adiava a derrocada, mas ao mesmo tempo tornava a futura explosão cada vez mais devastadora. Greenspan foi um Papa do credo neoliberal, promotor activo da «desregulamentação económica», dos «mercados livres», da exploração sem limites e do Estado sem funções sociais. A mitologia oficial era acompanhada por uma bem real e colossal transferência de riqueza, que esvaziou os bolsos dos povos e trabalhadores de todo o planeta (incluindo da classe operária dos EUA), para encher, para além do imaginável, os bolsos duma classe parasitária e corrupta que chegou a convencer-se a si própria (e a muitos incautos) que era todo-poderosa, e invencível porque mais inteligente que os meros mortais a quem tantas vezes condenou a vidas sem esperança e mortes prematuras.
Mas a tóxicodependência financeira não podia iludir eternamente a realidade. Em apenas seis meses (que já parecem uma eternidade), o outrora todo-poderoso sistema financeiro bateu com a cara no chão, e a mítica indústria automóvel faliu. A economia produtiva está a derrapar a ritmos assustadores em todo o mundo. Milhões de trabalhadores já perderam os seus postos de trabalho. Os governos dos países capitalistas estão a navegar à vista («guiando-se pelas estrelas», nas palavras do nosso ministro das Finanças que – alvíssaras! - falou verdade). Os «inteligentes» parecem encaminhar-se para a façanha de embater simultaneamente em Cila e Caribdes. A derrocada revela-se cada dia pior do que os mais negros cenários.
E agora vem Greenspan declarar que «pode vir a ser necessário nacionalizar temporariamente alguns bancos, de forma a facilitar uma reestruturação rápida e ordeira. Parece que é aquilo que se faz uma vez em cada cem anos» (Financial Times, 18.2.09). O Papa do capitalismo (selvagem, por natureza) confessa que o Deus que andou a apregoar não é todo-poderoso, nem omnisciente. Mas desiludam-se os mais optimistas. A confissão não revela qualquer desejo de descer à realidade. Revela apenas o desejo de salvar a dominação de classe, que é o seu verdadeiro Deus: essa nacionalização «permitirá ao governo transferir os títulos tóxicos para um banco mau sem ter o problema de como lhes atribuir um preço». Um «banco mau» é a gíria agora em voga para designar um caixote de lixo (público), onde despejar os maravilhosos «novos instrumentos financeiros» (privados) que agora se confessa serem «tóxicos», ou seja, nada valerem. O arauto-mor dos mercados quer evitar que os mercados «atribuam um preço» às suas criações, porque sabe qual seria o veredicto. Mercados, mas apenas quando dá jeito (e lucro). Na fábula da Cinderela a falsa riqueza transformava-se em abóboras, o que pelo menos teria alguma utilidade e valor nutritivo. Mas no mundo real de Greenspan e Sócrates, a falsa riqueza é tóxica. E por isso, querem despejá-la nas mãos de quem vive do seu trabalho.
Mas quem tanto sofreu com o festim capitalista das últimas décadas terá ideias diferentes sobre o destino a dar aos resíduos tóxicos desse festim. E sobre aquilo que se deve fazer «uma vez em cada cem anos». A terra já começa a tremer, da Grécia a Guadalupe, da Islândia ao Leste europeu.
Mas a tóxicodependência financeira não podia iludir eternamente a realidade. Em apenas seis meses (que já parecem uma eternidade), o outrora todo-poderoso sistema financeiro bateu com a cara no chão, e a mítica indústria automóvel faliu. A economia produtiva está a derrapar a ritmos assustadores em todo o mundo. Milhões de trabalhadores já perderam os seus postos de trabalho. Os governos dos países capitalistas estão a navegar à vista («guiando-se pelas estrelas», nas palavras do nosso ministro das Finanças que – alvíssaras! - falou verdade). Os «inteligentes» parecem encaminhar-se para a façanha de embater simultaneamente em Cila e Caribdes. A derrocada revela-se cada dia pior do que os mais negros cenários.
E agora vem Greenspan declarar que «pode vir a ser necessário nacionalizar temporariamente alguns bancos, de forma a facilitar uma reestruturação rápida e ordeira. Parece que é aquilo que se faz uma vez em cada cem anos» (Financial Times, 18.2.09). O Papa do capitalismo (selvagem, por natureza) confessa que o Deus que andou a apregoar não é todo-poderoso, nem omnisciente. Mas desiludam-se os mais optimistas. A confissão não revela qualquer desejo de descer à realidade. Revela apenas o desejo de salvar a dominação de classe, que é o seu verdadeiro Deus: essa nacionalização «permitirá ao governo transferir os títulos tóxicos para um banco mau sem ter o problema de como lhes atribuir um preço». Um «banco mau» é a gíria agora em voga para designar um caixote de lixo (público), onde despejar os maravilhosos «novos instrumentos financeiros» (privados) que agora se confessa serem «tóxicos», ou seja, nada valerem. O arauto-mor dos mercados quer evitar que os mercados «atribuam um preço» às suas criações, porque sabe qual seria o veredicto. Mercados, mas apenas quando dá jeito (e lucro). Na fábula da Cinderela a falsa riqueza transformava-se em abóboras, o que pelo menos teria alguma utilidade e valor nutritivo. Mas no mundo real de Greenspan e Sócrates, a falsa riqueza é tóxica. E por isso, querem despejá-la nas mãos de quem vive do seu trabalho.
Mas quem tanto sofreu com o festim capitalista das últimas décadas terá ideias diferentes sobre o destino a dar aos resíduos tóxicos desse festim. E sobre aquilo que se deve fazer «uma vez em cada cem anos». A terra já começa a tremer, da Grécia a Guadalupe, da Islândia ao Leste europeu.