Revolta nas Antilhas
As populações das ilhas de Guadalupe e Martinica estão em greve contra a exploração e a discriminação económica e social. A revolta ameaça alastrar a outras regiões ultramarinas francesas.
A França reforçou o contingente da polícia de choque
Em Guadalupe, os protestos iniciados na terceira semana de Janeiro ainda não deram tréguas aos governos local e central. Desde então, milhares de pessoas têm-se manifestado nas ruas de Pointe-à-Pitre e noutras cidades em grandes acções de massas promovidas pelo Colectivo contra a Exploração Extrema (LKP, no dialecto autóctone), plataforma que reúne 47 estruturas sociais, sindicais e políticas.
A 24 de Janeiro, 25 mil pessoas desfilaram nas ruas da capital. Cinco dias depois, o número de aderentes ao protesto mais que duplicou e nos primeiros dias de Fevereiro as palavras de ordem colocaram abertamente em causa o domínio do território por parte da minoria branca. «Guadalupe é nossa, não deles», expressaram os manifestantes referindo-se aos descendentes dos esclavagistas coloniais franceses, os bekes, que representando pouco mais de 1 por cento da população mas são detentores de 90 por cento dos meios de produção, dos dividendos dos recursos naturais e da riqueza produzida.
Supermercados, escolas, bancos e dependências governamentais encontram-se fora de funcionamento. O fornecimento de electricidade e de água potável é intermitente. O abastecimento de géneros alimentares não é regular devido aos bloqueios populares nas principais vias de comunicação, portos marítimos e aeroporto. Dezenas de voos charter em direcção à ilha foram cancelados e calcula-se que aproximadamente 15 mil turistas tenham visto anuladas as respectivas férias nos muitos resorts de luxo existentes. Os operadores hoteleiros sofrem um rude golpe nos negócios em plena época alta.
Barril de pólvora
Em Martinica, à revolta latente contra a miséria em que vivem os cerca de 400 mil habitantes, juntaram-se as declarações de um grande proprietário, Alain Huygues-Despointes. Instado a comentar a situação em Guadalupe, o beke com negócios em Martinica, Guadalupe e na Guiana Francesa considerou que o povo deveria olhar para os aspectos positivos da escravatura e da herança colonial. Despointes ter-se-á ainda declarado desfavorável à miscigenação, alegando que famílias constituídas entre brancos e negros revelam falta de harmonia.
No dia 5 de Fevereiro, 12 estruturas representativas dos trabalhadores convocaram uma greve geral em Martinica fazendo suas as reivindicações dos homólogos de Guadalupe. No dia 9, pelos menos 30 mil pessoas encheram as ruas de Fort-de-France, principal cidade da região. As organizações que encabeçam os protestos dizem ter capacidade para coordenar acções e apelam à solidariedade dos trabalhadores franceses no continente.
Guiana e a Ilha de Reunião podem juntar-se ao protesto generalizando a revolta das Antilhas francesas ao Oceano Índico. O barril de pólvora nas províncias ultramarinas da França teve o seu primeiro episódio no final do mês de Novembro do ano passado, quando os trabalhadores iniciaram uma paralisação de mais de uma semana na região da Guiana.
Exploração extrema
Na base dos protestos que alastram nas Antilhas francesas está a exploração extrema e o apartheid em que dizem viver os cidadãos daquelas regiões. Os lucros obscenos de companhias petrolíferas e multinacionais contrastam com a miséria em que vive o povo. Os manifestantes afirmam ainda que têm sido ignorados pelos sucessivos governos de Paris.
O desemprego e a pobreza nas colónias superam em muito os índices verificados no continente. A taxa de desocupação em Guadalupe ultrapassa os 23 por cento e os preços dos bens de primeira necessidade são entre 30 a 60 por cento superiores aos praticados em França. Guadalupe é uma das 13 regiões mais pobres da Europa.
O governo local está nas mãos do Partido Socialista Francês, que perante os acontecimentos disse que as exigências dos grevistas são também as suas, embora se tenha declarado contrário à greve.
A tudo isto acresce o racismo, que se expressa, por exemplo, no acesso a postos em empresas ou na administração do território. Mesmos os mais qualificados não conseguem encontrar emprego devido ao Apartheid, denunciam.
Firmes na luta
Face ao eclodir de convulsões sociais, o executivo francês enviou nas últimas semanas a Guadalupe e Martinica o seu ministro dos Territórios Ultramarinos. Numa primeira deslocação, a 31 de Janeiro, Yves Jégo subestimou a firmeza das reivindicações e gerou ainda mais descontentamento entre a população. Posteriormente, o responsável governamental anunciou um conjunto de medidas que garantiu responderem às exigências fundamentais: redução em 30 por cento do preço de 100 produtos básicos em 60 supermercados de Guadalupe; congelamento das rendas das habitações; 180 milhões de euros de ajuda ao território para baixar o preço dos combustíveis; e um subsídio social para «os que se entreguem ao trabalho», medida cuja implementação estava prevista para o próximo ano mas que, fruto da revolta, vai ser antecipada imediatamente.
Jégo procurou também romper a unidade da greve prometendo aos proprietários das bombas de gasolina que não permitirá a abertura de novos postos de combustíveis nos próximos três anos, mas o protesto manteve-se e os manifestantes exortam o governo a responder ao global do caderno reivindicativo.
Entre as quase 150 exigências concretas apresentadas por Elie Domata, líder da União Geral dos Trabalhadores de Guadalupe (UGTG), principal estrutura do LKP, estão a redução imediata de 50 cêntimos de euro no preço do combustível; redução do preço dos transportes e da água; contratos permanentes para todos os trabalhadores; acesso à educação por parte das crianças e dos jovens; estímulo à produção local; fim das taxas sobre os fertilizantes e as rações animais; e um aumento de 200 euros no salário mínimo, primeiro passo para melhorar a redistribuição da riqueza criada no território e essencial para a rápida melhoria das condições de vida da população.
O governo francês rejeita o aumento do salário mínimo e, entretanto, deslocou para aquelas regiões ultraperiféricas da República um reforçado contingente da polícia de choque.
Domota, citado pela France Press, acusou a França de querer calar à força os protestos populares e lembrou o massacre de cerca de uma centena de trabalhadores da construção civil, em 1967, que exigiam igualmente aumentos salariais. O dirigente sindical afiançou ainda a consistência e unidade da luta.
A 24 de Janeiro, 25 mil pessoas desfilaram nas ruas da capital. Cinco dias depois, o número de aderentes ao protesto mais que duplicou e nos primeiros dias de Fevereiro as palavras de ordem colocaram abertamente em causa o domínio do território por parte da minoria branca. «Guadalupe é nossa, não deles», expressaram os manifestantes referindo-se aos descendentes dos esclavagistas coloniais franceses, os bekes, que representando pouco mais de 1 por cento da população mas são detentores de 90 por cento dos meios de produção, dos dividendos dos recursos naturais e da riqueza produzida.
Supermercados, escolas, bancos e dependências governamentais encontram-se fora de funcionamento. O fornecimento de electricidade e de água potável é intermitente. O abastecimento de géneros alimentares não é regular devido aos bloqueios populares nas principais vias de comunicação, portos marítimos e aeroporto. Dezenas de voos charter em direcção à ilha foram cancelados e calcula-se que aproximadamente 15 mil turistas tenham visto anuladas as respectivas férias nos muitos resorts de luxo existentes. Os operadores hoteleiros sofrem um rude golpe nos negócios em plena época alta.
Barril de pólvora
Em Martinica, à revolta latente contra a miséria em que vivem os cerca de 400 mil habitantes, juntaram-se as declarações de um grande proprietário, Alain Huygues-Despointes. Instado a comentar a situação em Guadalupe, o beke com negócios em Martinica, Guadalupe e na Guiana Francesa considerou que o povo deveria olhar para os aspectos positivos da escravatura e da herança colonial. Despointes ter-se-á ainda declarado desfavorável à miscigenação, alegando que famílias constituídas entre brancos e negros revelam falta de harmonia.
No dia 5 de Fevereiro, 12 estruturas representativas dos trabalhadores convocaram uma greve geral em Martinica fazendo suas as reivindicações dos homólogos de Guadalupe. No dia 9, pelos menos 30 mil pessoas encheram as ruas de Fort-de-France, principal cidade da região. As organizações que encabeçam os protestos dizem ter capacidade para coordenar acções e apelam à solidariedade dos trabalhadores franceses no continente.
Guiana e a Ilha de Reunião podem juntar-se ao protesto generalizando a revolta das Antilhas francesas ao Oceano Índico. O barril de pólvora nas províncias ultramarinas da França teve o seu primeiro episódio no final do mês de Novembro do ano passado, quando os trabalhadores iniciaram uma paralisação de mais de uma semana na região da Guiana.
Exploração extrema
Na base dos protestos que alastram nas Antilhas francesas está a exploração extrema e o apartheid em que dizem viver os cidadãos daquelas regiões. Os lucros obscenos de companhias petrolíferas e multinacionais contrastam com a miséria em que vive o povo. Os manifestantes afirmam ainda que têm sido ignorados pelos sucessivos governos de Paris.
O desemprego e a pobreza nas colónias superam em muito os índices verificados no continente. A taxa de desocupação em Guadalupe ultrapassa os 23 por cento e os preços dos bens de primeira necessidade são entre 30 a 60 por cento superiores aos praticados em França. Guadalupe é uma das 13 regiões mais pobres da Europa.
O governo local está nas mãos do Partido Socialista Francês, que perante os acontecimentos disse que as exigências dos grevistas são também as suas, embora se tenha declarado contrário à greve.
A tudo isto acresce o racismo, que se expressa, por exemplo, no acesso a postos em empresas ou na administração do território. Mesmos os mais qualificados não conseguem encontrar emprego devido ao Apartheid, denunciam.
Firmes na luta
Face ao eclodir de convulsões sociais, o executivo francês enviou nas últimas semanas a Guadalupe e Martinica o seu ministro dos Territórios Ultramarinos. Numa primeira deslocação, a 31 de Janeiro, Yves Jégo subestimou a firmeza das reivindicações e gerou ainda mais descontentamento entre a população. Posteriormente, o responsável governamental anunciou um conjunto de medidas que garantiu responderem às exigências fundamentais: redução em 30 por cento do preço de 100 produtos básicos em 60 supermercados de Guadalupe; congelamento das rendas das habitações; 180 milhões de euros de ajuda ao território para baixar o preço dos combustíveis; e um subsídio social para «os que se entreguem ao trabalho», medida cuja implementação estava prevista para o próximo ano mas que, fruto da revolta, vai ser antecipada imediatamente.
Jégo procurou também romper a unidade da greve prometendo aos proprietários das bombas de gasolina que não permitirá a abertura de novos postos de combustíveis nos próximos três anos, mas o protesto manteve-se e os manifestantes exortam o governo a responder ao global do caderno reivindicativo.
Entre as quase 150 exigências concretas apresentadas por Elie Domata, líder da União Geral dos Trabalhadores de Guadalupe (UGTG), principal estrutura do LKP, estão a redução imediata de 50 cêntimos de euro no preço do combustível; redução do preço dos transportes e da água; contratos permanentes para todos os trabalhadores; acesso à educação por parte das crianças e dos jovens; estímulo à produção local; fim das taxas sobre os fertilizantes e as rações animais; e um aumento de 200 euros no salário mínimo, primeiro passo para melhorar a redistribuição da riqueza criada no território e essencial para a rápida melhoria das condições de vida da população.
O governo francês rejeita o aumento do salário mínimo e, entretanto, deslocou para aquelas regiões ultraperiféricas da República um reforçado contingente da polícia de choque.
Domota, citado pela France Press, acusou a França de querer calar à força os protestos populares e lembrou o massacre de cerca de uma centena de trabalhadores da construção civil, em 1967, que exigiam igualmente aumentos salariais. O dirigente sindical afiançou ainda a consistência e unidade da luta.