Cruzada contra Chávez

Pedro Campos
A Espanha negra encontrou uma nova cruzada pela qual bater-se. Agora o infiel não está na costa de África, mas do outro lado do Atlântico, e não responde ao nome de qualquer Mustafá mas sim ao de Hugo Chávez.
A propósito da sua recente visita à Espanha, os meios de comunicação, com destaque especial para a imprensa, acusaram-no sistematicamente de ditador, autoritário, populista e mais umas quantas coisas deliberadamente concebidas para lhe negar o perfil democrático. Essa Espanha, que parece estar tão preocupada pela democracia venezuelana – a mesma Espanha que antes nunca levantou a voz contra os crimes cometidos pelos governos da IV República – não repara sequer que o seu chefe de Estado é a expressão mais acabada da antidemocracia: um monarca colocado no poder pela ditadura franquista e que ainda se julga no tempo da conquista e manda calar um presidente democraticamente eleito pela maioria do seu povo.
Essa Espanha negra, ideologicamente controlada pelos meios de comunicação que apostam no pensamento único, esconde dos seus leitores os traços fundamentais que definem o governo bolivariano. Entre eles não se pode esquecer a realização de catorze processos eleitorais em apenas nove anos, e que no último referendo – os referendos, incluindo os presidenciais, são conquistas populares auspiciadas pelas autoridades bolivarianas – Chávez reconheceu, no mesmo dia da votação, a derrota da sua proposta, ainda que a diferença a favor da oposição não chegasse aos 1,5% por cento.
Esta política de agressão permanente ao processo bolivariano é a de todos os jornais da grande imprensa espanhola, com alguma ou outra excepção eventual, tal como aponta Toro Hardy, embaixador da Venezuela na Espanha, num artigo recente.
Nesse texto faz menção dos vários processos eleitorais, cujos resultados foram legitimados por organizações internacionais tão insuspeitas como o Centro Carter, a Organização de Estados Americanos e a própria União Europeia. Isto deveria ser suficiente para, se houvesse vergonha, não se acusar Hugo Chávez de ditador. Mas vergonha é o que falta a alguma gente...
Toro Hardy recorda-nos igualmente que a aplicação do adjectivo «populista» está totalmente fora de contexto, porque o que tem vindo a fazer o governo bolivariano é tratar de pôr a Venezuela em dia com a «imensa dívida social que existia» com as grandes maiorias nacionais.
Mas, para a imprensa espanhola, Hugo Chávez é também um destruidor da economia do seu país e uma perigosa ameaça para a paz da região, além de aliado das guerrilhas colombianas que, obviamente, seriam a mesma coisa que os narcotraficantes. A bem da verdade, não podemos dizer que a imprensa espanhola esteja enganada na análise do processo venezuelano. Ela pura e simplesmente mente com um descaramento digno de registo.
Está à vista de quem quiser ver a evolução da economia venezuelana durante o período da revolução bolivariana. Apesar dos melhores (ou piores) esforços da oposição, no país não existe crise económica. O que se passa é precisamente o contrário. A Venezuela leva dezoito trimestres de crescimento económico significativo e constante. Esta é a verdade, e não é correcto que, como «explicação» interessada deste crescimento, se afirme que tudo se deveu aos altos preços do petróleo. Se isto fosse verdade, não seria de esperar esse mesmo nível de crescimento em todos os países petrolíferos? Ora isso não é o que sucede. Por outro lado, vem a talhe de foice recordar que a subida dos preços dos combustíveis se deveu aos especuladores e não aos países produtores. Deveu-se também aos impostos que cada país comprador aplica – frequentemente mais da metade do preço de venda ao público – e não aos produtores.
Sobre a alegada ameaça militar que encarnaria Hugo Chávez a mentira é igualmente grosseira. A Venezuela gasta 1,39% do seu PIB em armamento, uma percentagem que está abaixo da média dos seus vizinhos no continente, segundo a Rede de Segurança e Defesa da América Latina. São igualmente falazes, por tendenciosas e manipuladoras, as acusações de cumplicidade do presidente venezuelano com a guerrilha da Colômbia. O próprio secretário-geral da OEA, referindo-se aos documentos «encontrados» no portátil de Raúl Reyes, afirmou que «uma análise independente (...) indica que se exagerou de uma maneira significativa» o conteúdo dos mesmos.
A imprensa espanhola – e outras – sabe qual é a verdade, mas também sabe que uma mentira repetida mil vezes...


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