Bolívia, a conspiração enraivecida

Luís Carapinha

A crise aguda do capitalismo torna o imperialismo mais imprevisível e perigoso

A situação na Bolívia mantém os traços de incerteza e volatilidade. Afirmar que a fúria fascista e o ódio de classe sacodem violentamente o país nas últimas semanas pecará apenas por defeito. O objectivo central esgrimido pela criminosa campanha de desestabilização e separatismo directamente conectada à grande central do imperialismo é claro: atingir no coração o governo democrático de Morales e com ele o processo de transformações progressistas. Isto, quando o presidente boliviano venceu com mais de 67% o referendo revogatório realizado o mês passado (em 2005 fora eleito para a presidência com 53% dos votos).
E, contudo, a arremetida reaccionária dos grandes interesses do agronegócio e da oligarquia boliviana, acolitados atrás do biombo da reivindicação de autonomia regional, foi, para já, obrigada a recuar. A conspiração não logrou a ruptura nas forças armadas, apesar dos atrasos e hesitações na acção destas. De diferentes pontos do mundo e em particular da América Latina ecoaram posições de apoio ao governo legítimo de La Paz e solidariedade para com o povo boliviano. Aumenta a pressão da esmagadora maioria popular e a mobilização das suas organizações para enfrentar a raiva golpista desatada sobre a Bolívia.

Mas, o que faz mover, afinal, os milhões da CIA e da USAID e tanto inquieta os grandes latifundiários de Santa Cruz, a capital da conspiração? Evo Morales esclarece: com a nacionalização dos hidrocarbonetos em 2006, «o que alterámos é que antes o povo boliviano ficava com 18% [das receitas] e 82% era levado pelas grandes empresas. (...) Agora o povo boliviano fica com 82% e às empresas corresponde 18%.» (Rebelión, 07.03.08). O que significou um aumento das receitas do Estado no sector de 300 milhões de dólares, em 2005, para 1930 milhões em 2006. O investimento em programas sociais dos recursos desta renda nacionalizada representou para Morales uma «revolução social» no país. É isto que dói à oposição boliviana e ao imperialismo. Acresce, ainda, que no horizonte se aproximam o projecto de revolução agrária e a realização do referendo para aprovar a nova Constituição, consolidando o processo de mudanças em curso. Daí a urgência golpista e a ferocidade das classes dominantes que não hesitam em recorrer aos métodos mais hediondos para salvaguardar os sacrossantos «direitos» de propriedade e os axiomas da exploração, concentração e apropriação capitalistas.

Na confrontação boliviana está também em causa o destino da vaga emancipadora que perpassa o subcontinente. No momento em que se cumprem os 35 anos do golpe de Estado fascista contra Allende, o eventual sucesso da agenda golpista auspiciada por Washington faria desatar uma onda revanchista da direita com impactos ameaçadores em toda a América Latina. Por isso revestiram-se de grande importância a solidariedade manifestada, entre outros, pelos governos do Brasil, Cuba e Venezuela. A atitude do presidente hondurenho de suspender a creditação do embaixador dos EUA tem no presente contexto um simbolismo histórico. A posição comum de apoio a La Paz na cimeira extraordinária da recentemente criada União das Nações Sul-Americanas não pôde ser ignorado, possuindo um significado transcendente.

A crise aguda do capitalismo torna o imperialismo mais imprevisível e perigoso. A sua sanha intervencionista redobra esforços no mundo, 24 horas sobre 24 horas. Inverter a roda da história não lhe será, todavia, tarefa fácil.
Na Bolívia, como recorda um dirigente comunista boliviano, terá que contar com a combatividade de uma classe operária com tradições, a incorporação na luta dos camponeses e a presença activa dos povos indígenas. E com a solidariedade de todos os que se batem no nosso tumultuoso tempo pela liberdade, o progresso social e o socialismo.


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