Caso Ingrid Betancourt

PCP sauda desfecho e condena hipocrisia

A libertação da ex-candidata presidencial colombiana Ingrid Betancourt, prisioneira das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), motivou a apresentação no Parlamento de dois votos de congratulação, um subscrito em conjunto por PS, PSD e CDS/PP, o outro pelo PCP.
O primeiro, onde as FARC são classificadas de «grupo terrorista» e o regime de Álvaro Uribe é glorificado, no momento da votação, teve os votos favoráveis de todas as bancadas parlamentares, à excepção do PCP que votou contra.
O voto apresentado pelos deputados comunistas, além dos próprios, recebeu também os votos favoráveis do Partido Ecologista «Os Verdes», sendo chumbado com os votos contra do PS, PSD e CDS/PP, optando o BE pela abstenção. Curiosa foi assim a posição deste último que, dizendo discordar do conteúdo do texto do PS, PSD e CDS/PP, vota-o favoravelmente, enquanto se abstém no voto do PCP, sobre o qual não se pronunciou.
Bernardino Soares, definindo a posição da bancada comunista nesta matéria, observou que a realidade na Colômbia e o que ali se passa «não se pode reconfigurar às catalogações de organizações como terroristas feitas pela administração norte-americana (que incluíam até há bem pouco tempo o ANC e Nelson Mandela) e pela UE, onde se incluem todos os que não aceitam o domínio imperialista».
E depois de lembrar que este é um conflito que já dura há mais de quatro décadas, «num quadro geral de ingerência» dos EUA, o líder parlamentar do PCP lembrou que é «sintomático o peso das forças armadas da Colômbia», com mais de 140 mil homens e uma despesa militar de 3,8 % do PIB.
Bernardino Soares condenou ainda com veemência os assassinatos, perseguições e torturas de sindicalistas e de outros patriotas e democratas levados a cabo pelo governo colombiano – uma prática de violência e horror em relação à qual o voto do PS, PSD e CDS/PP é despudoradamente omissa – e acusou os três partidos subscritores do texto de «glorificarem» o regime torcionário de Álvaro Uribe.
«Este regime é o do assassinato de comunistas e outros democratas, designadamente candidatos a eleições», denunciou, lembrando às bancadas do PS, PSD e CDS/PP que a «realidade é bem diferente da propaganda norte-americana».
«Congratulamo-nos com o regresso à liberdade de Ingrid Betencourt, mas não branqueamos o regime proto-fascista de Álvaro Uribe, concluiu o presidente da formação comunista.
O ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, no final, não perdeu a oportunidade para destilar anticomunismo e considerou «inadmissível» que se saude a libertação «sem condenar o sequestro», ou seja, que no voto do PCP «em nenhum momento» haja a condenação do «acto das FARC», considerando isso uma tentativa de «desculpar» esta organização e os seus métodos.
O que levou Bernardino Soares a pedir a palavra, em defesa da honra da sua bancada, para dizer ao governante que tirara «conclusões» do voto comunista «que não correspondem à verdade». «Nunca subscrevemos tais métodos», esclareceu o presidente da formação comunista, insistindo em afirmar que foram «o PS e a direita», estes sim, que «quiseram hipocritamente congratular-se com a libertação para depois glorificarem o regime colombiano que assassina e promove grupos paramilitares torcionários».

Por uma solução
política e negociada


No seu voto de congratulação, depois de considerar como «motivo de justa satisfação o regresso à liberdade» de Ingrid Betancourt, o PCP afirma que o seu resgate «coloca em evidência a gravidade da situação em que se encontram centenas de prisioneiros na posse da guerrilha e nas prisões do regime de Álvaro Uribe e a necessidade de encontrar uma solução humanitária».
O texto lembra que, «sistematicamente, o Governo da Colômbia tem vindo a sabotar negociações, mediadas por responsáveis de diversos países, no sentido da troca de prisioneiros entre as partes do conflito».
E considera que só «uma solução política e negociada» pode dar resposta aos «complexos problemas em presença na Colômbia» e a um conflito que é «indissociável de um regime que promove o agravamento da exploração, da repressão e das perseguições, incluindo milhares de assassinatos e brutais torturas, fortemente condicionado pela ingerência política e militar da administração norte-americana».
Uma solução política tanto mais necessária e urgente quanto é certo que este conflito ganha expressão, como se pode ler no voto, «num quadro em que os EUA o procuram radicalizar e instrumentalizar, como justificação para o reforço da presença de forças militares e como forma de desestabilização da região e dos países que a integram, com risco de escalada militar e ameaça à paz».


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