Sabe se a Espanha aprovou o Tratado de Lisboa?

Francisco Mota
Se a resposta a esta pergunta é Sim, então está muito bem informado, porque a grande maioria dos espanhóis não sabe. Não porque não comprem os jornais ou não vejam televisão. Nada disso. É que em Espanha não se brinca em serviço. Senão vejamos:
1. Não há referendo popular, não vá o diabo tecê-las.
2. Faz-se a ratificação no parlamento, a qual é oportunamente marcada para uns dias antes das férias, e, para maior segurança, para a mesma data em que a selecção espanhola disputa com a homóloga russa as meias finais do Campeonato da Europa de Futebol.
3. Aprovado no parlamento - como o teria sido na Irlanda não fosse a incómoda consulta popular -, no dia seguinte os jornais estão cheios da gloriosa gesta futebolística da Espanha da raça (3-0 à Rússia). Na TV não há tempo para referendos.

Procuremos nos jornais. No El País, na página 18, informam-nos de que houve «um amplo apoio ao Tratado de Lisboa». Votaram todos a favor menos uns tipos minoritários da Esquerda Republicana da Catalunha, da Esquerda Unida e do Bloco Nacionalista Galego. Abstiveram-se Nafarroa Bai e Iniciativa pela Catalunha.
Gaspar Llamazares, da Esquerda Unida, fez questão de dizer que votava contra devido a decisões da UE tomadas nos «últimos dias», como a semana das 65 horas ou a Directiva de Retorno, referente ao repatriamento dos imigrantes ilegais.
Mais interessante é a análise do quotidiano El Publico, teoricamente alinhado mais à esquerda no panorama político espanhol. Na página 19, ao fundo, lá vinha a notícia da aprovação.
O redactor começa assim: «Frente ao não irlandês, um sim rotundo espanhol (...)». Este rapaz não estará a confundir alhos com bugalhos? Um pouco mais abaixo, no mesmo texto, lamenta-se que o voto contra e as abstenções tenham destoado da vontade quase unânime de continuar com o processo. A partir deste dia, ninguém falou mais do assunto. Nem a grande maioria de que fala o referido jornalista.
Porque será? Porque não estão contentes? Será que têm medo que um destes dias passe pela cabeça dos espanhóis que deviam ser consultados sobre tão importante matéria e, assim, comecem a exigir um referendo popular?
Seja como for, o Sr. José Luis Rodríguez Zapatero, este rapaz tão progressista, parece não querer que se toque no assunto.


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