Os labirintos da grande confusão
Pelo menos aparentemente vivemos no reino das grandes confusões. O Governo de Sócrates mais parece um tratado de como dar nós cegos. As promessas de sucesso emudeceram e os ministros «socialistas» passaram a gritar triunfalmente, aos quatro ventos: «Vida barata? Nunca mais!». Umas vezes, há recessão; outras, não haverá. Os níveis de desemprego ora sobem, ora descem: tudo depende da cor das estatísticas. E há confusões para todos os gostos, nos dinheiros públicos, nas ligações dos ministros ao mundo empresarial, na localização dos aeroportos, nos comboios de alta velocidade, nas encomendas de armas, nos alçapões escondidos dos ajustes directos, etc., etc.
Também na Igreja Católica a confusão parece ter vindo para ficar. Mas aí, neste aspecto como em todos os outros, tudo fia mais fino. A Igreja é uma instituição altamente fechada sobre si mesma e essa política não é de agora, já vem de há séculos. Devora em silêncio os seus escândalos, protege com a penumbra os seus negócios e pratica o perdão como porta da sua própria salvação. Mas já não consegue ocultar totalmente a intimidade das relações da sua hierarquia com o poder político explorador ou com a banca e como, às escondidas, alterna a fé e o cifrão. Se em nome da fé recusa pronunciar-se acerca das intenções criminosas do «Código do Trabalho», em nome do cifrão recebe de mãos bem abertas as benesses do poder, como é o caso do pólo Leiria/Fátima ou de uma espécie de bolsa de valores criada em torno das grandes oportunidades de negócio, como o da valorização de terrenos do novo aeroporto de Alcochete, o turismo religioso, a venda ou reconversão do património da Igreja, o negócio da importação e da instalação em Portugal de idosos e reformados dos países ricos, a construção do Aeroporto de Fátima ou o projecto de entrega total, por parte do Estado, da malha nacional dos serviços de saúde, do ensino e da segurança social.
É evidente que a estratégia de ocultação e evasão das realidades adoptada pela Igreja é da responsabilidade dos bispos portugueses. São eles os estrategas da acção pastoral que, no conjunto dos seus sectores, traduz a perspectiva real da hierarquia relativamente aos problemas centrais da sociedade: saúde, escola, migrações, comunicação social, família, etc. Numa situação confusa como aquela que atravessamos e em que sobressaem as previsões de grandes embates sociais, natural seria que o episcopado se pronunciasse sobre a influência das políticas nos sectores sócio-económicos. Esta expectativa tem sido frustrada visto que os bispos não falam.
Mas em Abril deste ano um deles – D. Jorge Ortiga – surgiu a defender uma tese que não sendo confusa suscita a confusão. Afirmou o presidente da Conferência Episcopal que a atitude da hierarquia foi, é, e será, «de diálogo e frontalidade com o Governo». Apressou-se a esclarecer, logo a seguir, que o discurso crítico da Igreja não se refere à situação social portuguesa. Mas referiu que os institutos católicos estão a ser «incrivelmente excluídos da presença católica nos ambientes públicos e políticos, quase que pretendendo refugiar-nos no simples âmbito privado». Lembrou que a Concordata de 1940 continuará em vigor enquanto certas áreas (capelanias, segurança social do clero, universidade católica, etc.) não forem regulamentadas e terminou com uma tirada que deve suscitar a devida atenção. Declarou: «A Igreja nunca poderá prescindir de dar o seu contributo à edificação de um país mais justo»...
«Os cristãos portugueses devem, por isso, manifestar que nunca abdicarão, em princípios e em acções, dos seus direitos e das responsabilidades inerentes que derivam da simples cidadania. Daí que os cristãos, como exigência da fé, devem acordar para uma maior responsabilidade sócio-política e, neste contexto de post-modernidade, afirmar a sua capacidade de intervenção, não tendo medo de congregar ideias, suscitar iniciativas e delinear uma cultura.»
Eis aqui um bispo que finalmente falou. O seu discurso, porém, foi dirigido para dentro da área do Poder e traduziu a preocupação central de todas as hierarquias de conservar privilégios antigos ampliando-os continuamente. Nada disto interessa ao povo português. D. Jorge, para cimentar as suas ameaças veladas, recorreu ao mito da lateralização da Igreja Católica na qual ele é príncipe e à sugestão, pouco convencida, de uma eventual agitação das massas católicas. Mas ele bem sabe que a igreja portuguesa, tal como as estatísticas confirmam, já não tem grande capacidade de mobilização.
Foi simples pressão de homem de negócios. A hierarquia da Igreja dirigiu-se aos seus pares políticos com os quais se continuará a entender. Quanto aos dramas do povo português, os bispos mantêm-se surdos e mudos.
Também na Igreja Católica a confusão parece ter vindo para ficar. Mas aí, neste aspecto como em todos os outros, tudo fia mais fino. A Igreja é uma instituição altamente fechada sobre si mesma e essa política não é de agora, já vem de há séculos. Devora em silêncio os seus escândalos, protege com a penumbra os seus negócios e pratica o perdão como porta da sua própria salvação. Mas já não consegue ocultar totalmente a intimidade das relações da sua hierarquia com o poder político explorador ou com a banca e como, às escondidas, alterna a fé e o cifrão. Se em nome da fé recusa pronunciar-se acerca das intenções criminosas do «Código do Trabalho», em nome do cifrão recebe de mãos bem abertas as benesses do poder, como é o caso do pólo Leiria/Fátima ou de uma espécie de bolsa de valores criada em torno das grandes oportunidades de negócio, como o da valorização de terrenos do novo aeroporto de Alcochete, o turismo religioso, a venda ou reconversão do património da Igreja, o negócio da importação e da instalação em Portugal de idosos e reformados dos países ricos, a construção do Aeroporto de Fátima ou o projecto de entrega total, por parte do Estado, da malha nacional dos serviços de saúde, do ensino e da segurança social.
É evidente que a estratégia de ocultação e evasão das realidades adoptada pela Igreja é da responsabilidade dos bispos portugueses. São eles os estrategas da acção pastoral que, no conjunto dos seus sectores, traduz a perspectiva real da hierarquia relativamente aos problemas centrais da sociedade: saúde, escola, migrações, comunicação social, família, etc. Numa situação confusa como aquela que atravessamos e em que sobressaem as previsões de grandes embates sociais, natural seria que o episcopado se pronunciasse sobre a influência das políticas nos sectores sócio-económicos. Esta expectativa tem sido frustrada visto que os bispos não falam.
Mas em Abril deste ano um deles – D. Jorge Ortiga – surgiu a defender uma tese que não sendo confusa suscita a confusão. Afirmou o presidente da Conferência Episcopal que a atitude da hierarquia foi, é, e será, «de diálogo e frontalidade com o Governo». Apressou-se a esclarecer, logo a seguir, que o discurso crítico da Igreja não se refere à situação social portuguesa. Mas referiu que os institutos católicos estão a ser «incrivelmente excluídos da presença católica nos ambientes públicos e políticos, quase que pretendendo refugiar-nos no simples âmbito privado». Lembrou que a Concordata de 1940 continuará em vigor enquanto certas áreas (capelanias, segurança social do clero, universidade católica, etc.) não forem regulamentadas e terminou com uma tirada que deve suscitar a devida atenção. Declarou: «A Igreja nunca poderá prescindir de dar o seu contributo à edificação de um país mais justo»...
«Os cristãos portugueses devem, por isso, manifestar que nunca abdicarão, em princípios e em acções, dos seus direitos e das responsabilidades inerentes que derivam da simples cidadania. Daí que os cristãos, como exigência da fé, devem acordar para uma maior responsabilidade sócio-política e, neste contexto de post-modernidade, afirmar a sua capacidade de intervenção, não tendo medo de congregar ideias, suscitar iniciativas e delinear uma cultura.»
Eis aqui um bispo que finalmente falou. O seu discurso, porém, foi dirigido para dentro da área do Poder e traduziu a preocupação central de todas as hierarquias de conservar privilégios antigos ampliando-os continuamente. Nada disto interessa ao povo português. D. Jorge, para cimentar as suas ameaças veladas, recorreu ao mito da lateralização da Igreja Católica na qual ele é príncipe e à sugestão, pouco convencida, de uma eventual agitação das massas católicas. Mas ele bem sabe que a igreja portuguesa, tal como as estatísticas confirmam, já não tem grande capacidade de mobilização.
Foi simples pressão de homem de negócios. A hierarquia da Igreja dirigiu-se aos seus pares políticos com os quais se continuará a entender. Quanto aos dramas do povo português, os bispos mantêm-se surdos e mudos.