com aumento do custo de vida
«Onde é que isto vai parar?»
Jerónimo de Sousa confronta Sócrates com aumento do custo de vida
«Onde é que isto vai parar?»
O primeiro-ministro anunciou na passada semana no Parlamento algumas medidas no plano económico e social. Insuficientes, de curto alcance e tardias é o que se pode dizer destas propostas que ficam muito aquém da resposta necessária à crise e aos problemas que o próprio Governo gerou.
As famílias vivem hoje uma situação insustentável
A abertura de linhas de crédito de 600 milhões de euros a par do adiantamento às empresas de verbas do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN), foram duas das linhas de acção reveladas por José Sócrates na abertura do debate quinzenal realizado faz hoje uma semana. A estas somou, já no final do seu discurso, medidas com incidência social, com destaque para o aumento em 25 por cento dos abonos de família e o congelamento até ao final do ano dos passes sociais nos transportes públicos.
A grande questão que se coloca é a de saber, e não estando em causa a bondade de tais medidas, se são suficientes para atenuar a gravidade de uma situação que está a pôr as famílias entre a espada e a parede.
Fugir ao essencial
Jerónimo de Sousa, interpelando o primeiro-ministro, foi para essa realidade que chamou a atenção, falando do aumento do custo de vida e da «situação insustentável em que hoje vivem muitas famílias, particularmente de quem vive do seu salário ou da sua reforma».
E chamou a atenção para a circunstância de o chefe do Governo, em relação a esta questão central, não ter dito uma palavra. «Falou da actualização das pensões, tendo em conta o aumento da inflação, mas não disse uma coisa que devia dizer: é que esses aumentos intercalares também dependem do crescimento do PIB e este, de momento, é reduzido».
Não deixando passar em claro a tentativa do Governo de alijar responsabilidades, transferindo para terceiros o que são culpas próprias (ver caixa), o Secretário-geral do PCP perguntou-lhe se a «nossa política não tem responsabilidade nenhuma?»
«É que se não assumirem os erros nem as culpas, não se resolvem os problemas», explicou, sublinhando que não é possível passar ao lado das das «responsabilidades próprias das políticas e das medidas do Governo».
Sobre esta questão essencial Sócrates nada disse, optando, como já se tornou hábito, pelo discurso apologético e de auto-elogio em relação à sua governação. Repetiu que o seu Governo teve de fazer face a uma crise orçamental gravíssima, a uma situação da economia que em 2005 esteve próxima de uma segunda recessão, que teve de aguentar o preço do petróleo, o aumento dos juros e a apreciação do euro.
E mais disse que o seu mandato foi todo ele marcado por dificuldades, nunca por facilidades, e que a resposta àquelas faz-se resistindo «à facilidade e à demagogia» e enfrentando «com coragem a situação».
Não se ficou porém por aqui e, sem destoar do que tem sido uma marca nas suas intervenções,não resistiu à useira tirada anticomunista, acusando repetidamente o PCP de «facciosismo», de «sectarismo» e de querer ocultar aos seus militantes – que garantiu serem os mesmos que lhe chamam mentiroso nas manifestações – a criação nestes três anos de 97 mil novos empregos ou de nada dizer sobre a diminuição de 0,8 por cento do desemprego.
Leitura fria
Explicações que não colheram e levaram Jerónimo, retorquindo, a insistir junto do primeiro-ministro para que esclarecesse se o congelamento dos passes sociais se aplicava em outras regiões onde há outros sistemas múltiplos similares ou bilhetes combinados.
E sobre o desemprego não escondeu o seu espanto por o primeiro-ministro vir gabar-se com a baixa conjuntural depois de termos atingido a maior taxa de desemprego dos últimos 20 anos. Criticando a ausência de referência ao facto de a referida baixa do desemprego ser o resultado de milhares de portugueses que emigraram e dos muitos que desistiram de procurar emprego, o dirigente comunista acusou José Sócrates de fazer uma mera «leitura estatística, fria, sem contar que afinal estas pessoas não têm hoje possibilidade de emprego».
E em matéria de crescimento do emprego aconselhou-o a ser mais avisado e cauteloso, porquanto, observou, o Governo está a «falhar num dos seus objectivos: o do emprego qualificado e da formação». E lembrou que o emprego criado é, em larguíssima medida, precário, ou seja, «as pessoas hoje têm emprego mas amanhã não sabem se terão».
Faltar às promessas
Quanto ao adjectivo com que as populações e os trabalhadores, dando voz à sua indignação e revolta, classificam o primeiro-ministro – incomodando-o bastante, pelos vistos... - Jerónimo de Sousa esclareceu: «não lhe chamo isso, mas digo que faltou à verdade, designadamente em relação às alterações do Código do Trabalho». E acrescentou: «a bancada socialista prometeu uma coisa e o Governo o que faz agora são malfeitorias que fragilizam ainda mais a posição dos trabalhadores portugueses».
Sócrates, sobre o Código do Trabalho, ainda insistiu no sofisma de que a legislação por si proposta é o «maior e mais ambicioso programa de combate à precariedade», mas Jerónimo teve de lhe lembrar, arrasando o argumento do seu interlocutor, que nos seus périplos pelo País onde anda a tentar convencer o que não é possível de convencer» nunca, mas nunca, tem uma palavra em relação ao que é «a essência na proposta do Governo: despedir com facilidade, alterar os horários de trabalho, caducar a contratação colectiva».
«Sobre isso nunca fala», sublinhou, esclarecendo que o PCP não é contra a concertação mas sim contra a proposta que o Governo apresentou na concertação, relativamente à qual o ministro do Trabalho já disse que há matérias que não são negociáveis».
«Ora que grande concertação...», ironizou o líder comunista, pondo assim em evidência a natureza falsa do diálogo com que o Governo mascara o que chama de concertação.
Preços dos combustíveis
Escalada insuportável
Uma das matérias que foi chamada para primeiro plano no decurso do debate foi a do aumento dos preços dos combustíveis. Jerónimo de Sousa interrogou-se sobre as razões que explicam, por exemplo, que a gasolina aumente mais do que o preço do barril de petróleo.
«Explique lá esta contradição», foi o desafio lançado pelo dirigente do PCP ao chefe do Governo, sem que tenha obtido deste qualquer resposta.
Quis ainda o líder comunista saber – e também aqui o silêncio de Sócrates foi total - por que razão a GALP, comprando o petróleo em todo o lado ao mesmo preço, aplique depois preços diferentes, um, por exemplo, em Elvas, outro, em Badajoz.
«Como se explica esta discrepância, com tantos efeitos negativos na economia, designadamente na economia raiana?», insistiu em perguntar o dirigente do PCP, trazendo ainda à colação o facto de armadores e sindicatos dos pescadores terem resolvido paralisar a partir do fim do mês, face ao que consideram ser o carácter insuportável do preço do gasóleo.
A culpa é dos outros
Uma das perguntas formuladas pelo líder comunista ao primeiro-ministro, mais uma que ficou sem resposta clara, foi no sentido de saber quais as medidas concretas que o Executivo PS tem em mente para combater o galopante e insuportável aumento do custo de vida.
«Onde é que isto vai parar?» foi a interrogação deixada por Jerónimo de Sousa, interpelando o primeiro-ministro, a quem informou ser esta uma frase que ouve com frequência de pessoas que se lhe dirigem, queixando-se do estado insustentável a que chegou a vida, sem que o Governo adopte medidas de valorização dos salários e pensões.
José Sócrates, na réplica, tentando desviar-se da questão, optou por valorizar as medidas por si momentos antes anunciadas, dizendo por exemplo que o aumento do abono é «uma das medidas mais poderosas de apoio», abrangendo cerca de 900 mil das famílias mais carenciadas.
E disse que o Governo «faz o que pode» e que está consciente de que tais famílias são «as mais atingidas pela situação internacional». Com estas palavras, como já fizera na sua intervenção inicial, Sócrates voltou a ilibar o Governo das suas responsabilidades próprias e fazer passar a ideia de que é na situação internacional que está a causa exclusiva de todos os nossos males.
A grande questão que se coloca é a de saber, e não estando em causa a bondade de tais medidas, se são suficientes para atenuar a gravidade de uma situação que está a pôr as famílias entre a espada e a parede.
Fugir ao essencial
Jerónimo de Sousa, interpelando o primeiro-ministro, foi para essa realidade que chamou a atenção, falando do aumento do custo de vida e da «situação insustentável em que hoje vivem muitas famílias, particularmente de quem vive do seu salário ou da sua reforma».
E chamou a atenção para a circunstância de o chefe do Governo, em relação a esta questão central, não ter dito uma palavra. «Falou da actualização das pensões, tendo em conta o aumento da inflação, mas não disse uma coisa que devia dizer: é que esses aumentos intercalares também dependem do crescimento do PIB e este, de momento, é reduzido».
Não deixando passar em claro a tentativa do Governo de alijar responsabilidades, transferindo para terceiros o que são culpas próprias (ver caixa), o Secretário-geral do PCP perguntou-lhe se a «nossa política não tem responsabilidade nenhuma?»
«É que se não assumirem os erros nem as culpas, não se resolvem os problemas», explicou, sublinhando que não é possível passar ao lado das das «responsabilidades próprias das políticas e das medidas do Governo».
Sobre esta questão essencial Sócrates nada disse, optando, como já se tornou hábito, pelo discurso apologético e de auto-elogio em relação à sua governação. Repetiu que o seu Governo teve de fazer face a uma crise orçamental gravíssima, a uma situação da economia que em 2005 esteve próxima de uma segunda recessão, que teve de aguentar o preço do petróleo, o aumento dos juros e a apreciação do euro.
E mais disse que o seu mandato foi todo ele marcado por dificuldades, nunca por facilidades, e que a resposta àquelas faz-se resistindo «à facilidade e à demagogia» e enfrentando «com coragem a situação».
Não se ficou porém por aqui e, sem destoar do que tem sido uma marca nas suas intervenções,não resistiu à useira tirada anticomunista, acusando repetidamente o PCP de «facciosismo», de «sectarismo» e de querer ocultar aos seus militantes – que garantiu serem os mesmos que lhe chamam mentiroso nas manifestações – a criação nestes três anos de 97 mil novos empregos ou de nada dizer sobre a diminuição de 0,8 por cento do desemprego.
Leitura fria
Explicações que não colheram e levaram Jerónimo, retorquindo, a insistir junto do primeiro-ministro para que esclarecesse se o congelamento dos passes sociais se aplicava em outras regiões onde há outros sistemas múltiplos similares ou bilhetes combinados.
E sobre o desemprego não escondeu o seu espanto por o primeiro-ministro vir gabar-se com a baixa conjuntural depois de termos atingido a maior taxa de desemprego dos últimos 20 anos. Criticando a ausência de referência ao facto de a referida baixa do desemprego ser o resultado de milhares de portugueses que emigraram e dos muitos que desistiram de procurar emprego, o dirigente comunista acusou José Sócrates de fazer uma mera «leitura estatística, fria, sem contar que afinal estas pessoas não têm hoje possibilidade de emprego».
E em matéria de crescimento do emprego aconselhou-o a ser mais avisado e cauteloso, porquanto, observou, o Governo está a «falhar num dos seus objectivos: o do emprego qualificado e da formação». E lembrou que o emprego criado é, em larguíssima medida, precário, ou seja, «as pessoas hoje têm emprego mas amanhã não sabem se terão».
Faltar às promessas
Quanto ao adjectivo com que as populações e os trabalhadores, dando voz à sua indignação e revolta, classificam o primeiro-ministro – incomodando-o bastante, pelos vistos... - Jerónimo de Sousa esclareceu: «não lhe chamo isso, mas digo que faltou à verdade, designadamente em relação às alterações do Código do Trabalho». E acrescentou: «a bancada socialista prometeu uma coisa e o Governo o que faz agora são malfeitorias que fragilizam ainda mais a posição dos trabalhadores portugueses».
Sócrates, sobre o Código do Trabalho, ainda insistiu no sofisma de que a legislação por si proposta é o «maior e mais ambicioso programa de combate à precariedade», mas Jerónimo teve de lhe lembrar, arrasando o argumento do seu interlocutor, que nos seus périplos pelo País onde anda a tentar convencer o que não é possível de convencer» nunca, mas nunca, tem uma palavra em relação ao que é «a essência na proposta do Governo: despedir com facilidade, alterar os horários de trabalho, caducar a contratação colectiva».
«Sobre isso nunca fala», sublinhou, esclarecendo que o PCP não é contra a concertação mas sim contra a proposta que o Governo apresentou na concertação, relativamente à qual o ministro do Trabalho já disse que há matérias que não são negociáveis».
«Ora que grande concertação...», ironizou o líder comunista, pondo assim em evidência a natureza falsa do diálogo com que o Governo mascara o que chama de concertação.
Preços dos combustíveis
Escalada insuportável
Uma das matérias que foi chamada para primeiro plano no decurso do debate foi a do aumento dos preços dos combustíveis. Jerónimo de Sousa interrogou-se sobre as razões que explicam, por exemplo, que a gasolina aumente mais do que o preço do barril de petróleo.
«Explique lá esta contradição», foi o desafio lançado pelo dirigente do PCP ao chefe do Governo, sem que tenha obtido deste qualquer resposta.
Quis ainda o líder comunista saber – e também aqui o silêncio de Sócrates foi total - por que razão a GALP, comprando o petróleo em todo o lado ao mesmo preço, aplique depois preços diferentes, um, por exemplo, em Elvas, outro, em Badajoz.
«Como se explica esta discrepância, com tantos efeitos negativos na economia, designadamente na economia raiana?», insistiu em perguntar o dirigente do PCP, trazendo ainda à colação o facto de armadores e sindicatos dos pescadores terem resolvido paralisar a partir do fim do mês, face ao que consideram ser o carácter insuportável do preço do gasóleo.
A culpa é dos outros
Uma das perguntas formuladas pelo líder comunista ao primeiro-ministro, mais uma que ficou sem resposta clara, foi no sentido de saber quais as medidas concretas que o Executivo PS tem em mente para combater o galopante e insuportável aumento do custo de vida.
«Onde é que isto vai parar?» foi a interrogação deixada por Jerónimo de Sousa, interpelando o primeiro-ministro, a quem informou ser esta uma frase que ouve com frequência de pessoas que se lhe dirigem, queixando-se do estado insustentável a que chegou a vida, sem que o Governo adopte medidas de valorização dos salários e pensões.
José Sócrates, na réplica, tentando desviar-se da questão, optou por valorizar as medidas por si momentos antes anunciadas, dizendo por exemplo que o aumento do abono é «uma das medidas mais poderosas de apoio», abrangendo cerca de 900 mil das famílias mais carenciadas.
E disse que o Governo «faz o que pode» e que está consciente de que tais famílias são «as mais atingidas pela situação internacional». Com estas palavras, como já fizera na sua intervenção inicial, Sócrates voltou a ilibar o Governo das suas responsabilidades próprias e fazer passar a ideia de que é na situação internacional que está a causa exclusiva de todos os nossos males.