Cataratas

Henrique Custódio
Foi remédio santo: a ida a Cuba de umas centenas de pessoas para receber operações às cataratas encheu de brios o Governo de José Sócrates, ao ponto de criar um «programa de choque» de 28 milhões de euros, que se propõe realizar 30.000 cirurgias às cataratas entre o próximo dia 1 de Julho e o mesmo mês de 2009, ou seja num ano. É obra!
Convém recordar que a ida de centenas de portugueses a Cuba se deveu à iniciativa de algumas câmaras municipais (concretamente Vila Real de Santo António, Aljezur e Santarém) que, confrontadas com um grave problema de saúde pública (milhares de munícipes, geralmente idosos e todos sem recursos, cegando lentamente com cataratas enquanto iam esperando anos a fio por uma simples consulta de oftalmologia nos hospitais públicos), decidiram aproveitar a extraordinária oferta do Estado cubano de pôr o seu Serviço de Saúde à disposição destes doentes portugueses.
Assim, por 1.300 euros – quantia que em Portugal apenas paga uma operação a um olho na cirurgia privada, enquanto no SNS há uma lista de espera de 110.000 pessoas só para uma primeira consulta oftalmológica – os doentes portugueses são operados em Cuba aos dois olhos com a mesma tecnologia moderna cá utilizada e internados durante 15 dias para garantir a recuperação, tendo acompanhamento médico permanente e serviços completos de exames e análises que, de vez em quando, até conduzem ao tratamento de outras patologias entretanto detectadas.
É evidente que uma lista de espera de 110.000 pessoas no Serviço Nacional de Saúde (SNS), apenas para uma primeira consulta de oftalmologia, constitui irretorquível prova de que o tratamento dos olhos em Portugal sofreu um desprezo profundo e sistemático ao longo de décadas, no nosso País, por parte dos responsáveis políticos da Saúde. Não é caso único: o mesmo aconteceu, por exemplo, com os tratamentos dentários, que praticamente não existem no sistema público de Saúde, ou com a realização de análises, exames e correlativos meios de diagnóstico paulatinamente entregue aos negócios da iniciativa privada, que se foram alargando e consolidando com financiamento directo do SNS – isto apenas para ilustrar. O resultado está à vista: quem quer uma consulta oftalmológica entra numa lista de espera de 110.000 inscritos, quem ousa pretender saúde oral ou gasta fortunas nos odontologistas ou deixa degradar os dentes (o que acontece à maioria), quem precisa de análises vai pagando cada vez mais taxas ou sendo preterido nos laboratórios privados, que já se dão ao luxo de «escolher» os clientes que melhor lhes paguem.
Neste caso das cataratas, o Governo de José Sócrates está farto de saber o que toda a gente conhece por experiência: quem as tem, ou dispõe de uns milhares de euros para comprar operações nos privados em Portugal ou Espanha, ou bem pode cegar sentado, numa fila que já vai em 110.000.
Também é sabido que os milhares de portugueses que, nos últimos anos, pagaram do seu bolso operações às cataratas nos privados de Portugal e Espanha, não segregaram brios em José Sócrates. Os ditos apenas o acometeram quando Cuba, com muito menos dinheiro e muito mais eficácia, pôs o seu SNS a resolver o problema que a política portuguesa de privatização da Saúde engendrou.
Se assim é, o melhor que há a fazer é contratualizar com Cuba outros serviços, desde bandas gástricas a tratamentos dentários, passando pelas dezenas de milhares de cirurgias em fila de espera: é a maneira de pôr José Sócrates a investir no Serviço Nacional de Saúde.


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