Falsos humanitários
«Afinal, as «preocupações humanitárias» visam a ingerência, dominação e guerra»
As notícias são dominadas pelas enormes tragédias do furacão de Myanmar (Birmânia) e do terremoto na China. As dezenas de milhares de mortos e a destruição são a parte mais importante dessa realidade. Mas há uma outra realidade, espantosa, que importa assinalar.
Nos grandes meios de comunicação conta-se uma só história sobre Myanmar: a de que a junta militar no poder está a obstaculizar a chegada de ajuda humanitária às populações. Com o historial tenebroso dos dirigentes birmaneses, haverá muita gente que nem questione porque estarão a fazer algo tão terrível. A história torna-se mais estranha quando se ouve que «o Presidente norte-americano George W. Bush declarou que “o mundo devia estar zangado e condenar” a Junta Militar no poder na Birmânia pela sua lenta reacção depois do desastre causado pela passagem do ciclone Nargis» (Público, 13.5.08). Será este o mesmo Bush que em Agosto de 2005 abandonou à sua sorte as centenas de milhares de habitantes de Nova Orleães atingidos pelo furacão Katrina? E que recusou a oferta cubana de envio de médicos? E que, enquanto Presidente, é responsável pelo facto de que, dois anos depois, «não há uma única escola pública na cidade de Nova Orleães que tenha reaberto [...] Nalgumas zonas da cidade, o abastecimento eléctrico ainda não foi reposto [...] muitos dos bairros tradicionalmente ocupados pelas famílias afro-americanas continuam desertos» (Público, 29.8.07)? Quando o terrível tsunami atingiu o sudeste asiático em 26 de Dezembro de 2004, os dirigentes das «potências ocidentais» demoraram dias a voltar de férias e foram inicialmente tão parcos nas suas ajudas que o coordenador das operações de auxílio humanitário da ONU declarou que a sua reacção era uma «forretice». Serão rebates de consciência que levam a que, uns meros cinco dias após o furacão, «o governo francês sugere que o Conselho de Segurança da ONU adopte uma resolução que obrigue o regime birmanês [...] a aceitar a ajuda internacional destinada às vítimas» (Público, 7.5.08)?
Se dúvidas houvesse, elas dissipam-se quando se lê um artigo com o título: «As razões para invadir Myanmar» (Asia Times, 10.5.08). Lá se escreve: «com os navios de guerra e a força aérea dos Estados Unidos em alerta, [...] o desastre natural apresenta uma oportunidade de crise para os EUA. Uma intervenção militar unilateral – e talvez aprovada pela ONU – em nome do humanitarismo, poderia facilmente [...] reabilitar o legado das controversas políticas militares pre-emptivas do enfraquecido Presidente George W. Bush». Descobre-se que a resistência da Junta Militar birmanesa não é à entrega de ajuda em si, mas à sua distribuição «utilizando a Força Aérea dos EUA e meios navais». Porque «se uma intervenção militar dos EUA em nome do humanitarismo pode ou não transformar-se numa tentativa armada de mudança de regime [...] dependerá provavelmente da resposta da população e dos militares de Myanmar aos primeiros desembarques de tropas dos EUA». Afinal, as «preocupações humanitárias» visam a ingerência, dominação e guerra. Querem acrescentar à tragédia natural uma tragédia artificial. Como as de anteriores guerras «humanitárias» e «libertadoras».
Quem pretende usar a catástrofe humanitária para fins políticos apenas compromete o trabalho dos que querem realmente prestar auxílio às vítimas, e dá argumentos aos militares birmaneses que instrumentalizam essa ajuda. Querem fazer algo realmente humanitário? Saiam já do Iraque (e do Afeganistão, Líbano, Palestina), onde a perda de vidas humanas provocada pela ocupação e guerra imperialista é superior à do furacão birmanês e do terremoto chinês juntos.
Nos grandes meios de comunicação conta-se uma só história sobre Myanmar: a de que a junta militar no poder está a obstaculizar a chegada de ajuda humanitária às populações. Com o historial tenebroso dos dirigentes birmaneses, haverá muita gente que nem questione porque estarão a fazer algo tão terrível. A história torna-se mais estranha quando se ouve que «o Presidente norte-americano George W. Bush declarou que “o mundo devia estar zangado e condenar” a Junta Militar no poder na Birmânia pela sua lenta reacção depois do desastre causado pela passagem do ciclone Nargis» (Público, 13.5.08). Será este o mesmo Bush que em Agosto de 2005 abandonou à sua sorte as centenas de milhares de habitantes de Nova Orleães atingidos pelo furacão Katrina? E que recusou a oferta cubana de envio de médicos? E que, enquanto Presidente, é responsável pelo facto de que, dois anos depois, «não há uma única escola pública na cidade de Nova Orleães que tenha reaberto [...] Nalgumas zonas da cidade, o abastecimento eléctrico ainda não foi reposto [...] muitos dos bairros tradicionalmente ocupados pelas famílias afro-americanas continuam desertos» (Público, 29.8.07)? Quando o terrível tsunami atingiu o sudeste asiático em 26 de Dezembro de 2004, os dirigentes das «potências ocidentais» demoraram dias a voltar de férias e foram inicialmente tão parcos nas suas ajudas que o coordenador das operações de auxílio humanitário da ONU declarou que a sua reacção era uma «forretice». Serão rebates de consciência que levam a que, uns meros cinco dias após o furacão, «o governo francês sugere que o Conselho de Segurança da ONU adopte uma resolução que obrigue o regime birmanês [...] a aceitar a ajuda internacional destinada às vítimas» (Público, 7.5.08)?
Se dúvidas houvesse, elas dissipam-se quando se lê um artigo com o título: «As razões para invadir Myanmar» (Asia Times, 10.5.08). Lá se escreve: «com os navios de guerra e a força aérea dos Estados Unidos em alerta, [...] o desastre natural apresenta uma oportunidade de crise para os EUA. Uma intervenção militar unilateral – e talvez aprovada pela ONU – em nome do humanitarismo, poderia facilmente [...] reabilitar o legado das controversas políticas militares pre-emptivas do enfraquecido Presidente George W. Bush». Descobre-se que a resistência da Junta Militar birmanesa não é à entrega de ajuda em si, mas à sua distribuição «utilizando a Força Aérea dos EUA e meios navais». Porque «se uma intervenção militar dos EUA em nome do humanitarismo pode ou não transformar-se numa tentativa armada de mudança de regime [...] dependerá provavelmente da resposta da população e dos militares de Myanmar aos primeiros desembarques de tropas dos EUA». Afinal, as «preocupações humanitárias» visam a ingerência, dominação e guerra. Querem acrescentar à tragédia natural uma tragédia artificial. Como as de anteriores guerras «humanitárias» e «libertadoras».
Quem pretende usar a catástrofe humanitária para fins políticos apenas compromete o trabalho dos que querem realmente prestar auxílio às vítimas, e dá argumentos aos militares birmaneses que instrumentalizam essa ajuda. Querem fazer algo realmente humanitário? Saiam já do Iraque (e do Afeganistão, Líbano, Palestina), onde a perda de vidas humanas provocada pela ocupação e guerra imperialista é superior à do furacão birmanês e do terremoto chinês juntos.