Ensino e função pública saíram à rua

Todos contra Sarkozy

Professores, pais e alunos e trabalhadores de toda a administração pública manifestaram-se, dia 15, em várias cidades de França contra as políticas de destruição do emprego e dos serviços públicos. Novo protesto já está marcado para amanhã.

Nova jor­nada na­ci­onal anun­ciada para quinta-feira

Em resposta à expressiva greve da função pública o presidente francês optou desastradamente pela provocação. Na tarde desse dia, visivelmente irritado com o encerramento generalizado das escolas, Nicolas Sarkozy apareceu na televisão para anunciar uma lei que imporá o cumprimento de «serviços mínimos» nos estabelecimentos de ensino e, à semelhança do que já vigora no sector dos transportes, obrigará os professores a comunicar a intenção de fazer greve com 48 horas de antecedência.
A reacção do sector não tardou. No domingo, uma manifestação que tinha sido convocada apenas pela Federação Sindical Unitária (FSU), à qual não aderiram as restantes estruturas do sector, juntou inesperadamente uma multidão nas ruas de Paris.
Inicialmente, a própria FSU, organização que representa docentes e não docentes de todos os graus de ensino, tinha como objectivo reunir cerca de 10 mil manifestantes. Porém, após o contra-ataque televisivo de Sarkozy, mais de 45 mil pessoas integraram-se espontaneamente no desfile, entre a Praça da Ópera e a Bastilha, repetindo o clamoroso protesto que a capital francesa havia visto três dias antes.

Re­sis­tência cres­cente

Traduzindo a crescente oposição às reformas do governo, a jornada de dia 15 registou a rara convergência de praticamente todas as organizações sindicais e associações de alunos e pais.
Em dezena e meia de cidades de França, de acordo com dados da CGT, cerca de 450 mil pessoas manifestaram-se contra a supressão de dezenas de milhares de postos de trabalho, vendo neste programa de «emagrecimento» do Estado uma séria ameaça não só ao serviço público de educação mas igualmente à generalidade dos serviços públicos hoje existentes.
No conjunto da função pública, aderiram à greve entre 40 a 45 por cento dos trabalhadores (5,2 milhões no total), mas estes níveis foram largamente ultrapassados no sector da educação, em particular no ensino básico, com mais de 70 por cento de grevistas, e no secundário (50%).
Embora com percentagens inferiores, a jornada foi seguida na administração local e regional, nos hospitais, nos correios, na aviação civil, serviços de metereologia e mesmo os telejornais do meio-dia da televisão pública France 3 foram afectados pela greve.

Mo­vi­mento alarga-se

Face à arrogância e intransigência do governo, os sindicatos mostram-se determinados em prosseguir a luta, tendo já anunciado novas acções nas quais procuram alargar a participação aos diferentes sectores.
Em comunicado divulgado no dia 16, a CGT considera que «mais do nunca é hora de ampliar a mobilização e prolongá-la no tempo. A restrição geral das políticas públicas e a restrição do direito de greve não podem passar!».
Neste sentido, a central apelou à participação dos trabalhadores da Administração Pública na jornada nacional em defesa de melhores pensões, marcada para amanhã, quinta-feira, para os sectores público e privado, e anunciou «novas etapas do movimento» para o início de Junho, altura em que o parlamento irá discutir a mobilidade e as carreiras profissionais.
No âmbito da jornada de amanhã, os oito sindicatos da companhia francesa de caminhos-de-ferro (SNCF) e três dos transportes da região de Paris (RATP) convocaram uma greve, que deverá ser igualmente seguida nos transportes aéreos.
Os ferroviários contestam o aumento do período de contribuições para obtenção de uma pensão completa e exigem a reabertura das negociações salariais. Em consequência das alterações no regime de aposentação impostas pelo governo em Outubro passado, os trabalhadores do sector deverão descontar, a partir de 2012, 40 anos em vez dos 37 anos que actualmente asseguram a plenitude de direitos. O período de descontos aumentará para 41 anos em 2016.


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